Enquanto a bola rola na Copa do Mundo 2026, ao menos cinco jogadores de quatro seleções — Japão, Marrocos, Cabo Verde e Gana — seguem investigados ou já julgados por estupro e agressão sexual. Os casos vão de boletim de ocorrência com laudo médico e fotos de hematomas a sete acusações formais em tribunal britânico. Em comum, a simultaneidade com o torneio e o silêncio da cúpula do futebol em relação a atletas acusados de crimes sexuais que continuam em campo.
O cenário expõe um contraste incômodo: a Copa opera no modo espetáculo, enquanto processos por violência sexual se arrastam em diferentes países, em fases distintas. Há investigação aberta envolvendo o capitão cabo-verdiano, ação penal em curso contra um lateral marroquino, série de acusações formais na Justiça inglesa contra um meio-campista ganês e casos que chegaram a ser arquivados no Japão. Tudo isso sem manifestação pública da FIFA sobre a permanência desses atletas nas convocações.
A quantidade de casos também mostra uma redução histórica na subnotificação, impulsionada por uma maior confiabilidade nos canais de atendimento. Há também ampliação da rede de acolhimento e uma mudança cultural que encoraja as mulheres a buscarem ajuda.

Denúncia contra Ryan Mendes
No caso de Cabo Verde, a investigação por estupro atinge o capitão Ryan Mendes, uma das principais figuras da equipe. O boletim de ocorrência cita fotografias de hematomas e um laudo médico que registra as lesões da suposta vítima, contratada pela Federação Neozelandesa de Futebol como intérprete e assistente operacional da seleção.
A denúncia aponta agressão física, estrangulamento, socos e mordidas, além da violência sexual dentro do hotel onde a delegação estava hospedada. Segundo relato da vítima, o episódio teria ocorrido em março de 2026, durante amistosos da equipe na Oceania. Cabo Verde atuou na Nova Zelândia em duas partidas: derrota por 4 a 2 para o Chile, no dia 27, e empate em 1 a 1 com a seleção anfitriã.
Com visto de trabalho e residência, a brasileira residente na Nova Zelândia estava alojada no mesmo hotel da delegação. O local funcionava em regime de 24 horas. Ela, ainda segundo relato à polícia, foi chamada para uma reunião em uma sala reservada à seleção e compareceu acreditando que atuaria como intérprete. No entanto, ao perceber que se tratava de um encontro social, voltou ao quarto por se sentir mal.
Ainda segundo o boletim, pouco depois ouviu batidas e abriu a porta imaginando um chamado de trabalho. Mendes então teria entrado, a agredido e a estuprado. A investigação segue em aberto, sem desfecho judicial informado até aqui.
Como a acusação contra Thomas Partey chegou à Copa de 2026?
Em campo, o empate sem gols entre Inglaterra e Gana, na segunda partida do Mundial, virou quase nota de rodapé diante do gesto de Djed Spence. O lateral inglês manteve as mãos nos bolsos e se recusou a cumprimentar Thomas Partey na saudação inicial, enquanto o restante do elenco participava do protocolo. A cena deslocou o foco para o histórico do meio-campista no Reino Unido.
Partey, que atua no Villarreal, responde na Justiça britânica por sete acusações de estupro e uma de agressão sexual. A recusa de Spence não partiu de diretriz da Federação Inglesa de Futebol, que tratou de se distanciar do ato, creditando a decisão ao próprio jogador do Tottenham.
A entidade não anunciou medida coletiva ou orientação específica ligada às denúncias contra o ganês, que segue em atividade e em evidência durante o torneio.
O que envolve o julgamento de Achraf Hakimi?
Marrocos também entra na lista de seleções com jogadores sob acusação de crimes sexuais. Achraf Hakimi, lateral do PSG, será julgado pelo Tribunal Criminal Departamental de Hauts-de-Seine, na França, sobre um caso envolvendo uma jovem de 24 anos. A denunciante afirma ter conhecido o atleta pelo Instagram e, já na residência do jogador, em Paris, foi beijada e tocada sem consentimento. Em seguida, ainda de acordo com o relato, acabou violada.
Segundo o depoimento, Hakimi teria inclusive a penetrado com os dedos apesar da recusa e das tentativas dela de se afastar. O marroquino nega de forma categórica e declarou em redes sociais que aguarda o julgamento como oportunidade para que “a verdade venha à tona”.
Antes de disputar a final da Liga dos Campeões e viajar aos Estados Unidos, o defensor compareceu ao Tribunal de Apelação de Versalhes em junho para tentar o arquivamento do caso, após decisão de 24 de fevereiro que determinou seu julgamento. A tentativa, conduzida pela advogada Fanny Colin, não convenceu o colegiado.

Situação de Junya Ito e Kaishu Sano pela Seleção Japonesa
No Japão, próximo adversário do Brasil no Mundial, dois nomes recentes da seleção também aparecem ligados a acusações de agressão sexual: Junya Ito e Kaishu Sano. Sano foi apontado pela imprensa japonesa como participante de um estupro coletivo, em 14 de julho de 2024, em um hotel de Tóquio, ao lado de dois amigos.
A vítima do caso acionou a polícia logo depois, o que levou à prisão do meio-campista e dos demais envolvidos. Embora tenha se declarado inocente no interrogatório, a defesa fechou um acordo com pagamento de indenização. A Procuradoria Distrital de Tóquio agiu na sequência e arquivou o caso.
A Federação Japonesa de Futebol tratou o episódio como “erro pessoal”, expressão usada publicamente, e manteve Sano na seleção. A decisão, aliás, gerou reação forte no país. Sites adultos passaram a publicar alertas para mulheres que viajassem à Copa do Mundo, sugerindo cuidados extras. A permanência do jogador na equipe, após o escândalo, virou ponto de atrito entre parte da torcida e a direção da entidade.
Junya Ito viveu trajetória diferente nos tribunais. Duas mulheres o acusaram de ter feito sexo sem consentimento em um hotel de Osaka, em 2023. O atacante negou as acusações e entrou com contra-ação por falsa acusação e difamação. Em agosto de 2024, o Ministério Público do Distrito de Osaka arquivou todas as denúncias contra o atleta por falta de provas.
O Ministério Público optou, ainda, por não colocar em xeque a credibilidade dos relatos nem processar as acusadoras na ação movida por ele. Absolvido, o jogador voltou à seleção e virou peça considerada fundamental na campanha do Japão na Copa.
Aumento das denúncias de violência sexual
O aumento nos casos notificados se dá, sobretudo, à redução histórica na subnotificação. Essa queda na desistência das denúncias ocorre por fatores como a melhora no acolhimento, conscientização social e alterações legislativas.
O silenciamento histórico das mulheres não acontecia por acaso; ele era alimentado pelo medo do julgamento, pelo receio de não ter como se sustentar e pelo descrédito nas instituições. Embora o machismo estrutural ainda dite as regras de grande parte dessa violência, o enfraquecimento daquela velha cultura que joga a culpa na vítima tem sido o grande combustível para o aumento da busca por justiça.
O avanço na legislação, que passou a tipificar e punir novas formas de violência (física, psicológica, moral, sexual e patrimonial), facilita o enquadramento e a denúncia dos crimes. Essa modernização e qualificação de serviços de escuta e proteção — a exemplo do aprimoramento da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 — oferecem um ambiente mais seguro para que as vítimas relatem as agressões sem sofrer uma “segunda violência” (o julgamento e a revitimização institucional).
