Após a primeira etapa concluída, de recuperação da lesão na panturrilha, Neymar agora vive a expectativa de estrear na Copa do Mundo 2026. O camisa 10 está à disposição de Carlo Ancelotti para o último compromisso do Brasil na fase de grupos, diante da Escócia, nesta quarta-feira (24). Embora não se saiba exatamente como o craque será aproveitado, há rumores de que ele seja utilizado como um falso 9 durante os minutos que estiver em campo.
Com Neymar nessa função, Ancelotti coloca a Seleção em um tipo de encruzilhada: o time ganha um cérebro solto no meio dos zagueiros rivais, mas abre mão de parte da gasolina que Matheus Cunha fornece na pressão. O plano do italiano para este retorno em Copa é tratá-lo como atacante por dentro, não mais como ponta, e isso mexe na hierarquia do ataque.
O cenário envolve um jogador de 34 anos, saindo de lesão grau 2 na panturrilha direita e sem vestir a amarelinha desde de 2023. Nesta linha, veículos esportivos como o UOL Esporte indicaram minutagem controlada ao camisa 10: algo entre 15 e 25 minutos no fim da partida. Se o roteiro se concretizar, com o Brasil já em vantagem.
A missão de Neymar nesse primeiro contato com a Copa de 2026 não é “salvar” nada, mas testar o corpo em ritmo de competição depois de um mês longe dos gramados.

Como Ancelotti enxerga Neymar atualmente?
A chave de toda a discussão passa menos por onde Neymar pode atuar e mais por onde Ancelotti quer encaixá-lo. Depois do amistoso com o Panamá, dia 31 de maio, o treinador foi cristalino ao abordar sobre como pretende utilizar seu camisa 10.
“O Neymar tem que jogar por dentro do campo, não pode jogar por fora. Ele não vai jogar como extremo (ponta). Vai jogar por dentro do campo, como atacante ou segundo atacante. É a posição que hoje jogam o Vinícius e o Raphinha”, disse à época.
No Santos, nesses meses que antecederam o Mundial, Neymar atuou mais como um armador, não velocista. Tocava curto, acelerava e freava o jogo a partir da intermediária, usando mais o cérebro que arranque.
Ao concentrá-lo na faixa central, Ancelotti encurta o trajeto e guarda o que ainda é diferencial: leitura entre linhas, último passe, drible em área congestionada. O treinador, porém, não o livra de responsabilidade sem a bola. Em entrevistas, o italiano deixou claro que, em sua visão, o futebol de alto nível exige intensidade de todos. Ou seja, a proteção que o sistema oferece é de percurso — menos corrida longa de ponta —, não de esforço.
O que muda com Neymar de falso 9 na seleção?
A função, hoje, segue a base, embora com ajustes, de quando Messi passou a sair da área para receber entre zagueiros e volantes, sob o comando de Guardiola. O atacante central abandona o posto de pivô fixo, recua alguns metros, atrai marcação e faz a defesa rival se perder nas referências. Se o defensor acompanha, abre espaço nas costas; se não, deixa alguém criativo livre para pensar.
Nesse desenho, Neymar opera no território que o favorece em 2026: miolo entre o primeiro volante adversário e os zagueiros. Ali, recebe de costas, gira, aciona os pontas ou finaliza rápido. O jogo pede arrancadas curtas, tabelas, drible em um para um, muito mais do que sprints de 40 metros. Em vez de ganhar duelo na corrida, o 10 explora o tempo que arranca dos marcadores quando a bola chega limpa entre as linhas.
O rótulo de falso 9, porém, não o transforma em observador quando o Brasil perde a bola. Na estrutura de Ancelotti, o atacante central é o primeiro a encurtar espaço no volante rival, o primeiro a saltar na pressão alta e a orientar o bloco ofensivo na tentativa de recuperar a posse rápido. A diferença em relação a um ponta é a área de atuação, em um quadrado mais compacto, próximo ao círculo central ofensivo.
O 4-2-4 de Carlo Ancelotti na Seleção
Desde o início do trabalho, o italiano bate na mesma tecla: “O sistema é 4-2-4 e não vai mudar. Depois, mudam as características dos jogadores”. Em campo, esse esquema se comporta como um 4-3-3 em movimento. Casemiro e Bruno Guimarães dão sustentação à frente da defesa, Paquetá circula como articulador mais solto, e quatro peças ofensivas ocupam o terço final, sem um 9 de área clássico.
Contra o Marrocos, Igor Thiago atuou como referência mais parada, prendendo os zagueiros por dentro. O time travou, faltou mobilidade nas trocas, e o placar ficou em 1 a 1. No jogo seguinte, diante do Haiti, Matheus Cunha assumiu o centro do ataque e ofereceu movimentação, pressão e chegada para finalizar, coroada com dois gols.
Cunha se comportou ali como um atacante de ligação. Ou seja, vinha buscar jogo, pressionava a saída haitiana, fechava linha de passe, aproximava de Paquetá e aparecia na área na hora certa. Essa atuação virou espécie de molde do que Ancelotti espera daquele corredor. Ninguém fixo, todos trocando de posição, com o homem central participando da fase defensiva quase como um meio-campista extra.
Neymar de falso 9 tira quem do time titular?
É nessa faixa que a entrada de Neymar bate de frente com a situação de Cunha. A apuração do O Globo é taxativa: não há plano de time titular com os dois juntos. Para Ancelotti, ambos ocupam o eixo central do ataque. Se o camisa 10 assume o papel de falso 9, o atacante que brilhou contra o Haiti vira opção de banco.
Com o craque por dentro, Vinícius Jr. continua aberto pela esquerda, atacando o espaço nas costas da defesa. Do lado direito, a disputa fica entre Luiz Henrique e Rayan. A estrutura de quatro homens à frente se mantém; o que muda é o intérprete do posto central. O Globo descreve ainda uma segunda alternativa: Neymar entrando na vaga de Paquetá, como meia avançado ou segundo atacante. Essa mexida exigiria redesenho do meio-campo.
Essa variação, porém, pesa no equilíbrio. Paquetá atua como peça quase intocável para o treinador, justamente por entregar criação e recomposição na mesma dose. Retirá-lo para acomodar o 10 mais recuado aumenta a carga defensiva sobre Casemiro e Bruno Guimarães e mexe numa base que segura o time quando perde a bola.

O que o Brasil ganha com Neymar fixado no centro?
Com o camisa 10 centralizado, a Seleção ganha um criador em zona nobre. Ele enxerga ângulos de passe entre volante e zagueiros que mudam a forma como a defesa rival se organiza. Quando recebe livre, tem tempo para acionar Vinícius em diagonal, acionar Luiz Henrique indo ao fundo ou tabelar com Paquetá na entrada da área. Essa leitura em espaço curto é justamente o tipo de recurso que faltou diante do Marrocos, quando as diagonais dos pontas foram bem marcadas.
Outro ponto está no drible em espaço reduzido. Mesmo sem a explosão de antes, o jogador segue capaz de tirar marcador em um raio pequeno, com um ou dois toques. No elenco atual, ninguém combina esse tipo de finta curta com passe e finalização no mesmo nível.
Em jogos de mata-mata, em que muitos adversários protegem a própria área com duas linhas, esse tipo de recurso vira uma forma de quebrar o desenho sem depender só do cruzamento ou do chute de fora.
O que a seleção perde ao trocar Cunha por Neymar de falso 9?
Na outra ponta da balança, aparece a intensidade. Matheus Cunha, no duelo com o Haiti, mostrou como um atacante central pode trabalhar sem a bola. Ele pressionou o zagueiro, fechou passe por dentro e foi ao combate o tempo todo. Essa disposição física, somada ao hábito de cortar linhas com e sem bola, é algo que o Ney atual não entrega na mesma rotação.
Além disso, o 10 entra na Copa sem ritmo competitivo de jogo há mais de um mês. Isso pesa em tomada de decisão sob pressão, reação a desarmes, repetição de arrancadas curtas. E qualquer aumento de minutagem em partidas de alta exigência eleva o risco de a panturrilha direita voltar a incomodar, ponto sensível no planejamento.
Escócia, lesão de Raphinha e a disputa por espaço de Neymar
O duelo com a Escócia vira, então, uma espécie de laboratório controlado. A intenção descrita pelo R7 é soltar o camisa 10 no trecho final, com o placar já encaminhado, para medir resposta física em contexto real. O foco não está em transformá-lo no herói da possível classificação, mas em preparar o terreno para as oitavas, se o corpo der sinais positivos.
No meio disso, a lesão de Raphinha mexeu no tabuleiro. O estiramento no músculo adutor da coxa direita, região que já o tirou de campo por mais de 100 dias no Barcelona, abriu uma lacuna no elenco. A ideia inicial era tratar Neymar como reserva de Vini ou do próprio Raphinha quando atuassem por dentro. Sem o ponta do Barça, possivelmente fora do restante da Copa, cresce a pressão para antecipar o protagonismo do 10.
Hoje, Luiz Henrique larga na frente para ocupar o lado direito. Isso porque oferece justamente o que a comissão técnica considera útil contra a Escócia: alguém que leve o jogo até o fundo e quebre a linha compacta com profundidade.
Se o teste físico e tático dessa quarta terminar sem sustos, a conversa para o mata-mata muda de temperatura. A Seleção que penou para criar contra o Marrocos passa a ter a opção real de começar os jogos com o camisa 10 como falso 9, mexendo na hierarquia do ataque e na forma de pressionar.
A grande questão, a partir daí, deixa de ser se Neymar consegue atuar por dentro e passa a ser até onde o Brasil está disposto a abrir mão da energia de Cunha para ter o jogo correndo no compasso do seu maior talento técnico no centro do campo.
