O goleiro Vozinha saiu de campo como protagonista no empate sem gols entre Cabo Verde e Espanha, em Nova Jersey, mas a cena que ele esperava nas arquibancadas não aconteceu. A mãe, peça central da própria história, acompanhou o feito histórico a mais de 5 mil quilômetros de distância, barrada não por falta de convite, mas pelo custo para tirar o visto para os Estados Unidos.
Em um torneio movido por cifras bilionárias, a realidade do camisa 1 cabo-verdiano expôs um contraste. Enquanto Lamine Yamal, Rodri e outras estrelas circulam com estrutura total, a mãe de Vozinha esbarrou em uma conta que não fechava. O goleiro explicou, ainda no gramado, que a combinação entre burocracia e dinheiro foi determinante para que ela permanecesse em Cabo Verde.

Por que a mãe de Vozinha não conseguiu ir aos Estados Unidos?
Em janeiro de 2026, o governo dos Estados Unidos incluiu Cabo Verde na lista de países cujos cidadãos precisam pagar uma caução reembolsável de até US$ 15 mil antes de viajar, além da taxa tradicional de visto. Na prática, famílias como a de Vozinha passaram a ter de separar um valor que, convertido, ultrapassa a casa dos R$ 76 mil, algo distante da realidade de grande parte da população cabo-verdiana.
Sem tempo hábil e sem condições de bancar o valor pedido, o pedido de visto não avançou. Enquanto o filho segurava a Espanha na estreia do Mundial, ela acompanhava tudo à distância. O próprio jogador resumiu o drama em poucas frases: “A minha mãe também não pôde estar aqui por causa de um problema de visto, e o dinheiro que teríamos de pagar por isso. Não conseguimos fazer isso a tempo”.
A zebra tem preço: como a história de Vozinha ganhou o mundo?
Dentro de campo, a narrativa foi outra. Aos 40 anos, defendendo o modesto Chaves, da segunda divisão de Portugal, Vozinha segurou finalizações de Yamal, Oyarzabal, Rodri, Pedri e companhia. A atuação rendeu o prêmio de melhor em campo dado pela Fifa e chamou a atenção não só pela atuação técnica, mas pelo pano de fundo humano: um goleiro veterano, de seleção considerada azarão, se impondo contra uma potência e convivendo com obstáculos fora do gramado.
Depois do jogo, ele detalhou o peso emocional daquele apito final. “Eu chorei após o jogo porque cresci com os meus avós quando era criança, e eles não puderam estar ali. Eles faleceram há alguns anos. A minha mãe também não pôde estar aqui por causa de um problema de visto”, contou.
O contraste ficou ainda mais evidente nas redes sociais. Em poucas horas, torcedores brasileiros se mobilizaram a partir da CazéTV para seguir o goleiro no Instagram, transformando o número de seguidores em um fenômeno. A conta de Vozinha ultrapassou a marca de seis milhões de perfis, superando a população total de Cabo Verde.
Quem é o goleiro Vozinha além do herói da Copa do Mundo 2026?
Antes de virar destaque mundial, a trajetória de Josimar José Évora Dias já carregava elementos de resistência. Ele deixou Cabo Verde aos 25 anos, quando se profissionalizou no Progresso do Sambizanga, em Angola. Em 2012, começou a carreira no futebol profissional, idade em que muitos goleiros já estão consolidados em clubes grandes. Entre idas e vindas, chegou ao Chaves, em Portugal, e se firmou como referência da seleção cabo-verdiana.
“Trabalhei a vida toda para este momento. Tenho 40 anos. Comecei a jogar futebol profissionalmente aos 25, em 2012. Pensei em desistir, mas continuei por causa deste sonho. Isto é para todos. Fui eleito o melhor em campo, mas isto é para todos os meus companheiros de equipe, porque sem eles nada seria possível. Continuarei a trabalhar por Cabo Verde e pelo seu povo”. O discurso reforça a imagem de líder experiente, mais ligado à seleção e ao país do que à própria vitrine individual.

Como nasceu o apelido “Vozinha” e o papel da família na história?
O apelido que hoje ecoa em estádios e redes sociais nasceu nos campos improvisados da infância. Criado pelos avós, Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes, o menino Josimar aprendia futebol entre jogadores mais velhos. Quando apanhava nas peladas, voltava para casa irritado, e os amigos diziam que ele corria direto para os avós em busca de apoio. Dessa rotina surgiu o “Vozinha”, uma espécie de lembrança viva de quem o levou pela mão até o gramado.
O que essa estreia de Cabo Verde revela sobre o futebol atual?
O empate sem gols contra a Espanha colocou Cabo Verde de vez no mapa da Copa do Mundo 2026 e reabriu discussões sobre desigualdade no futebol global. De um lado, seleções com estrutura completa, elenco de jogadores valorizados e logística sem sobressaltos. Do outro, um goleiro de 40 anos, vindo da segunda divisão portuguesa, com a família impedida de viajar por causa de um custo de visto que passa longe da realidade de boa parte dos torcedores que agora o seguem.
Em campo, Vozinha mostrou reflexo, leitura de jogo e frieza dignos de goleiro de seleção grande. Fora dele, relatou dificuldades que se aproximam mais da rotina de qualquer trabalhador que tenta visitar um parente no exterior do que da vida de estrela da Copa.
