Raúl Asencio, zagueiro do Real Madrid, só deve escapar definitivamente de uma pena de prisão se falar diretamente às vítimas do registro não autorizado da intimidade sexual. O Ministério Público das Ilhas Canárias condicionou a retirada do pedido de cadeia às desculpas do jogador, durante o julgamento, às mulheres que aparecem no vídeo gravado sem autorização em Gran Canaria.
Sem esse gesto, a promotoria mantém contra o defensor uma acusação por violação de privacidade, por ter mostrado o conteúdo a uma terceira pessoa. A audiência preliminar que redesenhou o caminho do caso aconteceu nesta terça-feira (16), em uma das varas criminais de Las Palmas de Gran Canaria. Na sessão, decidiu-se, por fim, que o pedido de desculpas encerraria o caso.
Promotoria prende estratégia ao pedido de desculpas
A procuradora Mercedes Gil Castillo vinha defendendo, até agora, uma pena de dois anos e meio de prisão para Asencio. Na visão do Ministério Público, o jogador cometeu crime ao exibir o vídeo, consciente de que as imagens tinham sido gravadas sem autorização e de que uma das jovens era menor de idade no momento do encontro.

Nessa nova fase do processo, porém, a própria promotora admite trabalhar com uma saída diferente. Asencio está enquadrado no crime contra a privacidade, classificado como semipúblico pela legislação espanhola. Neste tipo de delito, o perdão das vítimas encerraria a via penal, desde que haja reparação do dano e que seja formalizado diante do juiz.
Ainda de acordo com o AS, a promotoria ainda não retirou a acusação, mas deixou a porta aberta. Se o zagueiro assumir o erro em julgamento e pedir desculpas diretamente às mulheres, o Ministério Público está disposto a deixar de pedir prisão. Concordando, portanto, em aceitar o encerramento do caso relacionado a ele.
Qual é exatamente a acusação contra Raúl Asencio?
Tudo começou com uma denúncia feita em Santa María de Guía, nas Ilhas Canárias, pela mãe da menor que aparece num vídeo íntimo, gravado sem autorização, que circulou entre jogadores do Real Madrid. A partir daí, a polícia rastreou a origem do arquivo até um grupo de jovens atletas vinculados à base do clube, que mantiveram relações com as duas mulheres da gravação.
O grupo acabou detido no centro de treinamento de Valdebebas, quando os quatro ainda defendiam equipes de base do clube. O processo, porém, descreve Asencio como destinatário e exibidor do vídeo, não como autor da gravação. De acordo com os autos, o arquivo chegou ao celular do defensor em 21 de junho de 2023, enviada por WhatsApp. Ele, então, teria mostrado o conteúdo íntimo a uma terceira pessoa, que acabou ouvida no inquérito como testemunha.
Em despacho anterior, o juiz responsável já havia afastado a ideia de que o zagueiro tivesse participado da captura das imagens. Não foram encontrados elementos que o colocassem na cena da gravação, mas a imputação por violação de privacidade foi mantida. Como o material envolvia uma menor de idade, o ato de exibir o vídeo manteve o zagueiro sob investigação.
A situação do defensor começou a mudar quando as duas mulheres que aparecem no vídeo receberam indenizações e declararam não querer vê-lo condenado. Uma delas, hoje com 18 anos, chegou a registrar em declaração que “aceitava o pedido de desculpas e o perdoava”. Em trecho divulgado pela Rádio COPE, ela disse que “não desejava ver Asencio punido criminalmente”.
Com isso, a defesa passou a sustentar que, em crime semipúblico, o perdão extingue a responsabilidade. Essa tese agora é parcialmente acolhida pela promotoria.
Por que o perdão não atinge os outros jogadores?
Ferrán Ruiz, Juan Rodríguez e Andrés García fecham o grupo de jogadores investigados no caso. Segundo a acusação, os três registraram o encontro sexual com as duas jovens em um clube de praia em Amadores, em Gran Canaria, enviaram o arquivo para contatos e grupos em aplicativos de mensagem. As vítimas ainda solicitaram a exclusão do vídeo após tomar conhecimento da gravação, mas o grupo as ignorou.
Para esse trio, o Ministério Público pede penas que chegam a quatro anos e sete meses de prisão. A promotoria entende que eles produziram e distribuíram imagens de caráter sexual sem consentimento e com ciência de que uma das envolvidas tinha 16 anos. Nessa moldura, o caso deixa de ser só violação de privacidade e passa a incluir o crime de distribuição de pornografia infantil.
Nesse ponto, o cenário jurídico muda completamente. Crimes ligados à circulação de conteúdo sexual com menores são tratados como ofensas de interesse público. A marcha do processo não depende da vontade da vítima, e acordos financeiros não bastam para travar a ação penal. Por isso que, mesmo que as jovens aceitassem as desculpas dos três, a promotoria manteria o pedido de pena de prisão.

Como o caso explodiu e chegou ao Real Madrid?
Conforme mencionado, o caso aconteceu em Santa María de Guía, nas Ilhas Canárias, e foi denunciado pela mãe da menor que aparece no vídeo. Os investigadores apontam que um dos atletas manteve relação sexual com a jovem, gravou a cena com o celular e compartilhou o vídeo em conversas com outros jogadores. O arquivo, então, teria circulado por diversos grupos, ampliando o alcance muito além do círculo presente no encontro.
Hoje, com 22 anos e integrado ao elenco principal merengue, Asencio chega ao tribunal com um trunfo que os ex-companheiros não têm: o perdão formal das duas mulheres. A chance de sair do caso sem pena de prisão passa por um gesto público na frente do juiz. Para os demais, o julgamento em Las Palmas deve definir se o episódio ficará restrito ao processo ou se se transformará em uma virada de chave na forma como o futebol lida com gravações e compartilhamento de vídeos íntimos no ambiente de vestiário.
