A Tunísia mal teve tempo de digerir a goleada para a Suécia e já precisa resolver outra urgência: quem comanda o time na sequência da Copa 2026. A queda de Sabri Lamouchi após o 5 a 1 na estreia do Grupo F interrompe um trabalho que mal saiu do papel — quatro jogos, uma vitória, um empate, duas derrotas — e empurra o país para um lugar raro na história dos Mundiais: seleções que trocam de treinador com o torneio em andamento.
Lamouchi assumiu no início do ano, com contrato até julho de 2028, para dar continuidade ao ciclo iniciado por Sami Trabelsi, demitido ainda na preparação. O peso do placar, somado à posição de lanterna provisória antes de encarar Japão e Holanda, levou a federação a agir de maneira imediata.
O gesto reacende um debate antigo: até onde vai a paciência com um treinador em Copa do Mundo?

Técnico demitido na Copa: o caso de Lamouchi é diferente?
O rótulo não é inédito, mas o momento da queda chama atenção. Ao longo de quase um século de Mundiais, federações quase sempre atravessaram a competição com o mesmo comandante, mesmo em campanhas ruins. As mudanças em pleno torneio surgem como exceção, e, quando ocorreram, vieram geralmente depois do segundo jogo da fase de grupos.
Com Lamouchi, o corte vem logo após a estreia. A seleção tunisiana ainda tem duas rodadas pela frente, mas, ainda assim, decidiu trocar o comando. O levantamento histórico indica que, até 2026, as três demissões documentadas durante Copas aconteceram em 1998, todas após a segunda partida. Isso coloca o francês em uma prateleira específica: a de primeiro treinador dispensado logo depois do jogo de abertura, em plena competição.
Esse detalhe temporal muda o peso do episódio. A Tunísia não apenas repete a própria história de trocar de técnico em Mundial, mas antecipa o relógio, encurtando ainda mais a margem de erro no comando.
Parreira e o início da lista de técnico demitido na Copa do Mundo
Antes de Lamouchi, o nome que abria a lista de técnico demitido na Copa do Mundo era um velho conhecido do torcedor brasileiro: Carlos Alberto Parreira. Campeão com o Brasil em 1994, ele assumiu a Arábia Saudita no começo de 1998, com a seleção já garantida no Mundial da França. O acordo tinha um objetivo direto: tentar repetir a classificação às oitavas, algo inédito quatro anos antes.
A campanha, porém, ficou longe da meta. Na estreia, derrota por 1 a 0 para a Dinamarca, rival direto na briga por vaga. Depois, 4 a 0 para a França, que jogava em casa e caminhava rumo ao título. Com duas derrotas, eliminação antecipada e clima pesado, a federação saudita decidiu encerrar o ciclo ali mesmo. Parreira foi afastado ainda na fase de grupos, e o interino Mohammed Al-Kharashy comandou o empate por 2 a 2 contra a África do Sul na última rodada.
O técnico brasileiro, que construiu carreira passando por seleções como Kuwait, Emirados Árabes, Brasil e África do Sul e por clubes na Europa, no Brasil e na MLS, acabou associado também a esse marco pouco comum: ser o primeiro técnico desligado por decisão da federação durante uma Copa, com o torneio em andamento.
Por que 1998 virou referência em demissões de treinadores?
Aquela edição da Copa, na França, acabou transformada numa espécie de ponto de virada para o tema. Em poucos dias, três seleções dispensaram seus treinadores durante a competição, criando um padrão que, até hoje, não se repetiu na mesma escala. Além de Parreira, caíram o sul-coreano Cha Bum-Kun e o polonês Henryk Kasperczak, então técnico da própria Tunísia.
Cha foi tirado do cargo depois de duas derrotas pesadas: 3 a 1 para o México e 5 a 0 para a Holanda. No terceiro jogo, o interino Kim Pyung-Seok comandou o empate em 1 a 1 com a Bélgica. Kasperczak deixou a seleção tunisiana após perder por 2 a 0 para a Inglaterra e 1 a 0 para a Colômbia, resultados que fecharam qualquer chance de classificação. O comando passou ao técnico local Ali Selmi, que segurou um 1 a 1 contra a Romênia na despedida.
Relatos da época, como o do Irish Times de 24 de junho de 1998, organizam essa sequência quase como uma cronologia da queda: primeiro Parreira, depois Cha, por fim Kasperczak. Ao revisar as edições de 1930 a 1994, não aparecem outros casos de demissão oficial de técnico durante o Mundial. Até 2026, esse trio segue sendo a única base confirmada desse tipo de ruptura — agora acompanhada, em outro contexto, pela saída de Lamouchi.
Pedidos de demissão contam nessa história?
Nem sempre a mudança de comando parte da federação. Há casos em que o treinador escolhe encerrar o ciclo em meio à competição, o que cria uma linha paralela à das demissões formais. Um dos episódios mais citados é o de Srečko Katanec, na Eslovênia, durante a Copa de 2002.
O técnico entrou em rota de colisão com o principal jogador da equipe, Zlatko Zahovič, logo na primeira partida, contra a Espanha. A discussão após a substituição do meia gerou questionamentos públicos à autoridade de Katanec. O treinador respondeu exigindo o afastamento de Zahovič da concentração, o que aprofundou o racha interno. Em 5 de junho de 2002, ainda durante o torneio, Katanec anunciou que deixaria o cargo ao final da campanha.
A Eslovênia terminou eliminada após derrota por 1 a 0 para a África do Sul, jogo em que o técnico foi expulso do banco e precisou cumprir suspensão na última rodada, assistindo do alto das arquibancadas. O episódio aparece sempre que se fala em mudanças no banco em Copa do Mundo, mas integra outra categoria: a de quem comunica a saída, não a de quem é demitido.

Demissões às vésperas da Copa ajudam a entender 2026?
O cenário da atual edição já indicava que o posto de treinador chegaria à Copa mais frágil que o normal. Em 2026, algumas seleções mudaram de técnico a poucos meses do início do torneio, cenário que formou um pano de fundo para a queda de Lamouchi. A Arábia Saudita dispensou Hervé Renard em abril, a menos de 60 dias da estreia, e escolheu o grego Georgios Donis para o lugar. Gana demitiu Otto Addo cerca de três meses antes do Mundial, após derrota em amistoso por 2 a 1 para a Alemanha.
Marrocos seguiu caminho parecido: Walid Regragui deixou o cargo também a cerca de três meses da Copa, abrindo espaço para Mohamed Ouahbi, então técnico da seleção sub-20. A Tunísia, por sua vez, já havia mexido na engrenagem em janeiro, quando tirou Sami Trabelsi e promoveu Lamouchi. Quando parte para uma nova troca depois do jogo com a Suécia, o país soma duas mudanças em menos de um ciclo de Mundial e retoma um padrão que acompanha sua trajetória desde 1998.
O conjunto desses episódios mostra um ambiente em que o treinador chega à Copa com pouco lastro e pouca rede de proteção. Da trinca de 1998 à queda relâmpago de Lamouchi em 2026, a linha do tempo indica um espaço cada vez menor para processos longos em seleções.
