Seis anos depois da primeira lesão em data Fifa, Flamengo e Federação Uruguaia tratam Arrascaeta como símbolo de uma relação em permanente tensão. A fratura da clavícula, a posterior lesão na panturrilha e a troca de acusações públicas em pleno 2026 transformaram o meia num personagem central de um embate que vai de medicina a calendário.
O camisa 10 está fora da estreia da seleção uruguaia nesta Copa, nesta segunda-feira (15), diante da Arábia Saudita, às 19h (de Brasília), em Miami. Essa ausência reabriu o debate sobre até onde a equipe nacional pode ir na cobrança física de um atleta que pertence a um clube e carrega histórico de problemas musculares.

Seis anos de atritos entre Flamengo, Uruguai e Arrascaeta
Entre 2020 e 2026, Arrascaeta acumulou problemas físicos em jogos e treinos envolvendo seleção e clube. Cada episódio acrescentou uma camada ao atrito entre Flamengo e Federação Uruguaia, com a primeira ruptura em outubro de 2020. O meia sofreu distensão na coxa esquerda durante treino da Celeste à época e perdeu seis rodadas do Brasileirão e de jogo de Libertadores.
Em setembro de 2021, o cenário se repetiu de forma diferente. Uma lesão muscular de grau 2 no reto anterior da coxa direita, durante o duelo contra o Palmeiras, criou atrito entre as partes. Isso porque o estiramento ocorreu logo após uma sequência de três jogos pelo Uruguai nas Eliminatórias, e médicos associaram o problema ao desgaste acumulado na Data Fifa. Ele passou 11 dias afastado das atividades no clube, que ficou com alerta ligado.
Já em outubro de 2021, Arrascaeta sofreu um estiramento de grau 2 no músculo reto anterior da coxa direita durante o empate com a Colômbia. Ele passou 41 dias fora, perdeu 10 rodadas do Brasileirão e semifinais da Copa do Brasil, que terminou com a eliminação para o Athletico. Nesse período, o meia voltou à convocação do Uruguai, mesmo sem ainda ter voltado aos treinos com bola.
Como o Flamengo transformou Arrascaeta em bandeira política?
A partir dessa sequência de 2021, o meia virou argumento político. A irritação da diretoria rubro-negra com a insistência da AUF em tê-lo à disposição mesmo machucado fez o clube liderar um movimento pela paralisação do calendário nacional nas datas Fifa. Dirigentes de grandes clubes brasileiros se uniram ao Flamengo à época.
O caso da convocação com lesão em curso, ainda sob o comando de Óscar Tabárez, ficou marcado internamente como um ponto de ruptura. O entendimento da cúpula rubro-negra era de que não havia equilíbrio entre o risco clínico e a necessidade esportiva da seleção. Nos bastidores, a situação ficou descrita como o momento em que a “paciência acabou”.
Na Copa do Mundo de 2022, no Qatar, a relação entrou em modo de trégua. Isso porque Arrascaeta chegava com quadro de pubalgia crônica e minutos controlados pelo técnico Diego Alonso. O meia foi preservado na estreia, entrou apenas no segundo jogo e só atuou como titular na terceira partida, contra Gana, quando marcou os dois gols da vitória por 2 a 0.
O pacto silencioso de preservação reduziu o atrito direto com o Flamengo, mas o histórico de problemas físicos seguia acumulado.
De “selo de paz” à acusação de “irresponsabilidade”
Com Marcelo Bielsa, a relação parecia caminhar para um ponto de equilíbrio, mas tudo mudou em março de 2025. Arrascaeta sentiu dor na virilha em jogo contra a Argentina, em Montevidéu, e o Flamengo assumiu a recuperação no Rio. Meses depois, em setembro, veio um novo gesto de cooperação: a AUF liberou o meia e Varela antes do fim da data Fifa, sem quadro clínico grave.
O movimento de liberação ocorreu em acordo com o clube, a fim de cooperar no controle de carga do camisa 10. A cúpula rubro-negra, por sua vez, enxergava espaço para conviver com a seleção em bases menos conflituosas. O jogador renovou contrato, a comunicação entre departamentos médicos parecia mais fluida e o discurso público era de alinhamento.
Quando tudo parecia bem, um novo atrito — e o mais firme. Em abril deste ano, Arrascaeta fraturou a clavícula direita em jogo contra o Estudiantes, pela Libertadores, foi operado e iniciou recuperação no Brasil. Já no dia 18 de maio, o clube atendeu ao pedido formal da AUF e liberou o meia para seguir tratamento com a seleção.
O Flamengo afirma ter enviado um documento detalhado, com cronograma e protocolos específicos. Acontece que duas semanas depois, o meia sofreu lesão na panturrilha direita, diagnosticada como grau 2, ainda durante a recuperação. No dia 6 de junho, o Rubro-Negro divulgou nota oficial dura contra a AUF:
“Diferentemente do acordado, mais uma vez, esses protocolos não foram seguidos”. O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, foi além ao dizer que a comissão de Bielsa “forçou a mão” e acelerou a carga de exercícios.

Quem controla o corpo de Arrascaeta?
Marcelo Bielsa negou ter tomado decisões unilaterais e citou a presença do fisioterapeuta do Flamengo, Laniyan Neves, integrado à delegação uruguaia a pedido de Arrascaeta. Segundo o técnico, “cada sessão e cada carga recebida” foi definida em conjunto com o profissional ligado ao clube, embora tenha admitido que a responsabilidade final pelo controle das atividades é da comissão da seleção.
De um lado, o Flamengo sustenta a tese de que houve descumprimento de um plano médico formal e uso antecipado do jogador, provocando um problema muscular de grau médio. Do outro, a AUF e Bielsa apontam para uma gestão compartilhada, amparada na presença de um representante rubro-negro junto à seleção.
Nesse contexto, Arrascaeta segue como protagonista involuntário de um conflito que espelha um debate global: quem tem a palavra final sobre o corpo de um atleta em calendário cada vez mais congestionado, clube ou seleção? Enquanto a Celeste estreia sem o camisa 10 e o Flamengo projeta o retorno do seu principal articulador, com calendário repleto de decisões a partir de julho.
