Wilton Pereira Sampaio precisou de apenas 90 minutos para reescrever a história disciplinar das Copas. No apito da vitória do México por 2 a 0 sobre a África do Sul, na abertura do Mundial 2026, no Estádio Azteca, o brasileiro mostrou três cartões vermelhos e quebrou um recorde que resistia havia 36 anos nas partidas inaugurais do torneio.
A estreia já seria marcante por si só: pela primeira vez um árbitro brasileiro comandou o jogo de abertura de uma Copa do Mundo. Mas o que transformou a data de 11 de junho em marco estatístico foi a maneira como o duelo se desenrolou, com intervenções da arbitragem em lances-chave e uso intenso do VAR, sem registro de confusão nos gols.

Wilton Pereira Sampaio quebra recorde logo na estreia
O nome de Wilton Pereira Sampaio passou a ocupar uma linha inédita na base de dados da Fifa e nos registros da Wikipedia dedicados à Copa do Mundo. Nenhum árbitro, em quase um século de torneio, havia aplicado três expulsões em uma partida inaugural. Assim, México x África do Sul abriu essa nova prateleira estatística e colocou o brasileiro no topo do ranking disciplinar das estreias.
As decisões começaram a pesar logo no início do segundo tempo. Aos 4 minutos, o sul-africano Sphephelo “Yaya” Sithole derrubou Brian Gutiérrez quando era o último homem da defesa. A infração, enquadrada como clara oportunidade de gol, resultou no primeiro vermelho direto da noite.
Com a África do Sul já em desvantagem numérica, o segundo cartão vermelho apareceu aos 38 minutos da etapa final. Themba Zwane foi punido após revisão do VAR, que flagrou uma agressão no rosto de Roberto Alvarado fora da disputa de bola. A análise em vídeo reforçou a linha dura da arbitragem em lances de violência física, reduzindo os sul-africanos a nove em campo.
O terceiro expulso, dessa vez do lado mexicano, saiu nos acréscimos. Aos 47 do segundo tempo, César Montes derrubou Khuliso Mudau em situação de chance clara de gol e também recebeu vermelho direto. Mesmo com o placar já encaminhado em 2 a 0 para o México, o jogo terminou com clima de atenção máxima e consolidou o recorde de três expulsões em uma abertura de Copa.
Além dos cartões vermelhos, Wilton ainda distribuiu três amarelos: dois para a África do Sul, aos 16 e 73 minutos, e um para o México, aos 22′. O pacote disciplinar somou, em um único duelo, 75% de todas as expulsões registradas na Copa de 2022, no Catar, com apenas quatro vermelhos em 64 partidas.
Como esse jogo entra para a história das expulsões em Copas?
O desempenho de Wilton Pereira Sampaio em México x África do Sul não mexeu apenas com o capítulo das estreias. O confronto passou a integrar a lista dos jogos com mais expulsões em Copas do Mundo, ocupando o segundo lugar no ranking histórico. O duelo se igualou a outros dois emblemáticos para quem gosta de estatística disciplinar.
Em 1998, Dinamarca x África do Sul também terminou com três vermelhos: Miklos Molnar e Morten Wieghorst, pelos dinamarqueses, e Alfred Phiri, pelos sul-africanos. Itália x EUA, em 2006, repetiu a mesma contagem, com Daniele De Rossi expulso pela Azzurra e Pablo Mastroeni e Eddie Pope pela seleção norte-americana.
No topo da lista segue isolada a partida conhecida como “Batalha de Nuremberg”: Portugal x Holanda, nas oitavas de final de 2006. Foram quatro cartões vermelhos — Costinha e Deco pelo lado português, Boulahrouz e van Bronckhorst pela equipe holandesa — além de 16 amarelos. A Copa de 2006, aliás, se consagrou como a mais rigorosa da história, com 28 expulsões em todo o torneio.
Enquanto a edição disputada na Alemanha teve quase três dezenas de vermelhos, o Mundial de 2022 registrou apenas quatro expulsões do início ao fim. Em contraste, México x África do Sul concentrou, sozinho, três vermelhos em 90 minutos, praticamente igualando uma Copa inteira de um ciclo recente em número de lances extremos de disciplina.

Qual recorde de 36 anos foi quebrado na abertura de 2026?
O número que caiu na noite de 11 de junho vinha intacto desde a estreia da Copa de 1990. Naquele ano, a Argentina, então campeã mundial, perdeu por 1 a 0 para Camarões em um jogo marcado pela força física e por duas expulsões de jogadores camaroneses. André Kana-Biyik e Benjamin Massing foram mandados para o vestiário mais cedo e estabeleceram a marca que duraria 36 anos como recorde de vermelhos em partidas inaugurais.
Desde então, nenhuma abertura havia passado de duas expulsões. A estatística atravessou as Copas de 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 sem ser ameaçada, até que Wilton Pereira Sampaio aplicou três vermelhos em uma única estreia e reposicionou a referência disciplinar do jogo de abertura.
A noite no Azteca também marcou outra linha inédita: o goiano se tornou o primeiro árbitro brasileiro a comandar um jogo inicial de Copa do Mundo. Até 2026, o Brasil era presença constante no quadro de árbitros do torneio, mas sem protagonizar o pontapé inicial. A escala de Wilton reuniu, em um único apito, uma estreia nacional nesse tipo de partida e um recorde disciplinar sem precedentes.
Após o duelo, a atuação do brasileiro ganhou avaliação técnica de um ex-árbitro Fifa ouvido pela CNN Brasil, que classificou a condução do jogo como ponto de destaque, especialmente pela ausência de polêmicas em lances de gol e pela utilização dos protocolos de vídeo em decisões de campo. Em um Mundial que começa com números fortes na estatística disciplinar, o sobrenome de Wilton já aparece associado a uma das marcas mais expressivas da história recente das Copas.
