Thomas Partey vai disputar uma Copa do Mundo inteira com oito acusações graves pendentes e sem data de definição. No dia 23 de junho, em Boston, ele estará no círculo central para enfrentar a Inglaterra — seleção do país onde responde a sete acusações de estupro e uma de agressão sexual — enquanto o julgamento segue marcado apenas para junho de 2027. No centro do campo, o futebol terá de encarar um dilema que o sistema esportivo nunca havia precisado encarar nesse nível de exposição.
A presença do volante ganês em campo expõe uma fratura entre Justiça, protocolo esportivo e expectativa pública. Ele se declara inocente de todas as acusações, conta com apoio explícito da federação do próprio país e está regular perante as regras esportivas. Ao mesmo tempo, carrega um processo criminal complexo, que envolve quatro mulheres, e será exibido globalmente em um dos jogos mais aguardados da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026.
Acusações contra Thomas Partey: como o caso chegou ao tribunal
As denúncias contra Thomas Partey se referem ao período em que o meio-campista atuava pelo Arsenal, em Londres, entre 2020 e 2022. Segundo a promotoria britânica, quatro mulheres prestaram queixa por episódios distintos, todos concentrados na capital inglesa e arredores. O jogador foi indiciado após investigação da Polícia Metropolitana e compareceu ao tribunal para responder às acusações.
Duas acusações de estupro se relacionam a incidentes que teriam ocorrido em 2021, envolvendo a primeira denunciante. Uma segunda mulher apresentou três acusações de estupro referentes a supostos episódios em 2022. A terceira mulher apontou um caso de agressão sexual, também de 2021. Em seguida, uma quarta denunciante surgiu após novas investigações, resultando em mais duas acusações de estupro ligados a dezembro de 2020, na região de Londres. No total, são oito acusações criminais em andamento.
No tribunal, Partey se declarou inocente de todas as oito acusações. De acordo com a BBC, o juiz determinou que todos os relatos das quatro mulheres sejam analisados em um único processo, o que aumenta a complexidade do julgamento, mas concentra provas, testemunhos e perícias na mesma ação. O cronograma divulgado prevê que essa análise conjunta só chegue ao júri em junho de 2027, depois da Copa do Mundo.

Por que o julgamento só vai acontecer depois da Copa?
A demora do processo é explicada por uma combinação de fatores típicos de casos penais complexos no Reino Unido. O volume de acusações, o envolvimento de múltiplas supostas vítimas e a necessidade de reunir laudos, perícias digitais, registros de comunicação e depoimentos detalhados tornam o cronograma longo. Somam-se aí a agenda dos tribunais e a sobrecarga do sistema de Justiça criminal britânico, frequentemente apontada em relatórios oficiais.
No caso de Thomas Partey, a decisão de concentrar as oito acusações em um único julgamento amplia o tempo de preparação das partes. Ministério Público, defesa e próprio tribunal precisam alinhar calendários com dezenas de testemunhas e especialistas. O resultado prático, para o futebol, é direto: o jogador estará em campo na Copa de 2026 sem qualquer veredicto, mantendo oficialmente o status de réu que nega as acusações.
Esse intervalo de quase um ano entre o Mundial e o julgamento cria um vácuo normativo para federações, clubes e entidades. Não há condenação, mas há um processo de grande repercussão. Não existe suspensão automática prevista pelos regulamentos da FIFA ou das confederações em casos assim, a menos que haja punição esportiva específica ou decisão judicial que impeça deslocamentos e atuação profissional.
O aperto de mão com Thomas Partey pode mudar o protocolo da Copa?
É nesse vazio que surge o dilema mais visível do caso Thomas Partey: o aperto de mão pré-jogo. Reportagem do The Times revelou que a Federação Inglesa (FA) estaria discutindo internamente se orientaria seus jogadores a recusar o cumprimento ao ganês antes da partida em Boston. Até o momento, a FA não se pronunciou oficialmente, o que mantém o tema no campo das especulações e dos bastidores.
A situação ganha peso porque a FIFA alterou o protocolo de entrada em campo nesta Copa do Mundo. Jogadores titulares e reservas se reúnem no círculo central para a execução dos hinos, cercados por câmeras em plano aberto. O aperto de mão continua fazendo parte do ritual, transformando um gesto de protocolo em ato potencialmente político. Qualquer recusa ou aceitação diante de Partey será lida como posicionamento, dentro e fora do gramado.
Se algum atleta inglês recusar o cumprimento, o gesto pode se tornar a imagem simbólica do torneio, comparável ao joelho no chão adotado em 2022, no Catar, em protesto contra o racismo. Se todos seguirem o protocolo e apertarem a mão do ganês, muitos interpretarão o ato como normalização da presença de um jogador acusado de crimes de violência sexual em um palco global. Em ambos os cenários, a mensagem extrapola o futebol.
Presunção de inocência x responsabilidade pública: onde o futebol se coloca?
O embate central do caso Thomas Partey está na fronteira entre presunção de inocência e responsabilidade institucional. O técnico Carlos Queiroz, ao convocá-lo, evocou diretamente esse princípio jurídico: segundo ele, em países como Inglaterra e Portugal, o entendimento continua sendo o de que qualquer pessoa é inocente até que um tribunal diga o contrário. A frase ganhou destaque porque resume a base legal que sustenta a convocação do meio-campista.
Do outro lado, a Federação Ganesa tratou o tema de forma mais pragmática. Seu porta-voz, Henry Asante Twum, afirmou em entrevista ao canal 3Sports que a mídia inglesa estaria usando o caso como “jogo psicológico” para desestabilizar a seleção e que a entidade segue apoiando o jogador e focada na competição. A fala desloca o debate do terreno ético para o campo da estratégia esportiva e da narrativa de vestiário.
Esse contraste de discursos expõe uma lacuna de políticas claras. Nem FIFA, nem federações nacionais, nem principais ligas europeias possuem protocolos uniformes sobre participação de atletas formalmente acusados de crimes sexuais em grandes torneios. Cada caso recente foi tratado em moldes próprios, influenciado por contexto local, pressão da opinião pública e decisões de clubes e patrocinadores.

Um dilema sem precedente real no futebol mundial
O histórico do futebol oferece poucos paralelos diretos para o dilema que envolve Thomas Partey. Um caso frequentemente lembrado é o de Luis Suárez e Patrice Evra, em 2012, na Premier League. Após a condenação disciplinar de Suárez por racismo, Evra recusou o aperto de mão do uruguaio antes de um Liverpool x Manchester United. Ali, porém, havia um veredicto já emitido pela liga inglesa, o que mudava o enquadramento da recusa.
Na situação atual, não há sentença, apenas acusações em curso. Essa diferença jurídica é o que torna o embate em torno de Partey algo inédito em Copas do Mundo. A pergunta que ronda o meio esportivo é direta: como lidar com a presença ativa, em campo, de um jogador processado por crimes graves, antes de qualquer definição da Justiça? A Copa de 2026 está forçando o ambiente do futebol a formular uma resposta, ainda que não queira.
Essa resposta não virá em relatório técnico ou comunicado de gabinete, mas ao vivo, com o apito inicial em Boston, diante de bilhões de espectadores. A forma como a FA, a seleção de Gana, os companheiros de elenco e os adversários vão agir em torno de Thomas Partey deve servir de referência para futuros casos, dentro e fora do futebol. A bola vai rolar, mas o que acontecer no círculo central pode marcar de maneira duradoura a relação entre Justiça, protocolo esportivo e responsabilidade pública no esporte de elite.
