O corte de Wesley às vésperas da Copa do Mundo deixou a Seleção em alerta e, ao mesmo tempo, acendeu um sinal vermelho no departamento financeiro e médico da Roma. Peça-chave no elenco italiano, o lateral sofreu uma lesão muscular de grau três no adutor durante um amistoso, e o caso trouxe à tona um mecanismo ainda pouco conhecido: o FIFA Club Protection Programme. Trata-se de uma espécie de seguro que tenta reduzir o prejuízo dos clubes quando um jogador se machuca servindo à seleção.
Com previsão de 40 dias de afastamento de Wesley, a Roma passou a olhar não só para a recuperação física do atleta, mas também para as regras que determinam se terá direito a ressarcimento e em que medida. Em um calendário pressionado por mais jogos, viagens longas e Copa ampliada na América do Norte, entender esse programa se tornou quase obrigatório para dirigentes, executivos e departamentos jurídicos que lidam diariamente com convocações e riscos de lesões.
O que é o FIFA Club Protection Programme e por que ele existe?
O Programa de Proteção aos Clubes da FIFA surgiu em 2012 como resposta a uma reclamação recorrente dos times: a obrigação de liberar jogadores para as seleções sem qualquer compensação estruturada em caso de lesão grave. A entidade passou então a operar um modelo de resseguro global, financiado por um fundo específico, para pagar parte do salário de atletas que se machucam durante o período oficial de serviço às federações nacionais.
Na prática, o objetivo visa aliviar, em alguma medida, a carga financeira dos clubes e também preservar o calendário de seleções. O programa, porém, não cobre qualquer problema físico e impõe uma barreira inicial rígida. Só há indenização se o jogador ficar afastado do clube por mais de 28 dias consecutivos. Ou seja, casos de curta duração ficam integralmente sob responsabilidade dos times, sem participação da Fifa.
A partir do 29º dia, o mecanismo entra em ação com pagamentos diários. O valor máximo diário gira em torno de 20,5 mil euros (cerca de R$ 123 milhões), limitado a um teto total de 7,5 milhões de euros por jogador, por lesão. A conta considera exclusivamente o salário fixo previsto no contrato principal entre atleta e clube, deixando de fora luvas, bônus por metas, prêmios variáveis e direitos de imagem.

FIFA Club Protection Programme: o que entra na cobertura?
No centro das discussões sobre o FIFA Club Protection Programme está o alcance real da proteção. O programa não pretende substituir o contrato do atleta nem cobrir todas as formas de remuneração. Ele foca em um ponto específico: o reembolso do salário fixo proporcional ao período de afastamento, respeitando os limites diários e o teto global estabelecido pela Fifa.
De forma resumida, o desenho funciona assim:
- Período sem cobertura: do 1º ao 28º dia de lesão, o clube arca com 100% do salário.
- Período indenizado: do 29º dia em diante, a Fifa começa a pagar uma diária até cerca de 20,5 mil euros.
- Limite total: o clube pode receber, no máximo, 7,5 milhões de euros por atleta, em cada lesão.
Esse desenho cria uma situação particular para jogadores com salários muito altos. Em atletas que ganham 15 ou 20 milhões de euros por ano somente em vencimentos fixos, uma lesão de longa duração pode ultrapassar facilmente o teto de 7,5 milhões. Nesse cenário, o seguro atenua o dano, mas não cobre a folha integral. O clube segue exposto a uma fatia relevante do custo, o que explica o interesse crescente por apólices privadas complementares.
Além disso, custos médicos continuam fora do radar. Despesas com exames, cirurgias, fisioterapia, reabilitação e estrutura de recuperação seguem sob responsabilidade conjunta do clube e da federação nacional. No caso de Wesley, por exemplo, a Roma e a CBF dividem essas contas, enquanto o programa da Fifa atua apenas sobre o salário fixo, dentro das regras.
Quando acionar oPrograma de Proteção aos Clubes da FIFA?
O acionamento do Programa não depende apenas da gravidade da lesão, mas também o momento exato em que ela acontece. A cobertura vale exclusivamente para incidentes registrados dentro da chamada “janela FIFA”, período em que o jogador está oficialmente sob responsabilidade da seleção.
Esse intervalo inclui quatro etapas:
- O deslocamento do atleta ao deixar a estrutura do clube rumo à seleção.
- As sessões de treinamento com a equipe nacional.
- Partidas oficiais e amistosos.
- A viagem de retorno até o reencontro com o clube.
Se um problema físico surge fora dessa janela, como em treinos locais do clube ou em atividades não relacionadas à seleção, o programa não se aplica. Esse recorte temporal determina se a entidade máxima do futebol participará ou não do ressarcimento. Em competições como a Copa, esse limite ganha ainda mais relevância diante da intensidade do calendário e do nível de exigência física.
Como o caso Wesley expõe o impacto do programa na Roma?
O lateral sofreu uma lesão muscular de grau três no adutor durante o ciclo da Seleção, pouco antes da bola rolar na Copa 2026. O diagnóstico apontou cerca de 40 dias de afastamento, tempo suficiente para tirá-lo do Mundial, comprometer a pré-temporada e o início do campeonato italiano.
Com esse prazo, o clube italiano se enquadra nos critérios do FIFA Club Protection Programme. A projeção visa, portanto, pagamento integral do salário pela Roma até o 28º dia, além dos custos, junto à CBF, ligados ao tratamento. Entre o 29º e o 40º dia – um total de 12 dias –, a Fifa passa a reembolsar o valor diário proporcional ao salário fixo, desde que dentro do limite de cerca de 20,5 mil euros por dia.
Na prática, isso significa que o clube reduz parte da perda, mas não se livra do impacto financeiro. O time continua sem o atleta em campo, mantém a folha praticamente intacta no período de carência e recebe uma compensação restrita na reta final do afastamento.

Como funcionam as diárias da Copa e a divisão do dinheiro entre clubes?
Além do ressarcimento em caso de lesão, existe outro fluxo de dinheiro envolvendo clubes e Copa do Mundo: a compensação diária paga pela presença dos jogadores no torneio. Para 2026, a Fifa reservou um fundo de US$ 355 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão) destinado exclusivamente a remunerar equipes que liberam atletas para a competição, agora com 48 seleções participantes.
O valor exato da diária por jogador só é definido ao fim do Mundial. A Fifa cruza três dados principais:
- O montante total do fundo.
- O número de atletas inscritos por todas as seleções.
- A soma de dias que esses jogadores permaneceram no torneio.
A projeção para 2026 aponta uma diária próxima de US$ 11 mil (R$ 57 mil) por jogador, patamar semelhante ao praticado na Copa de 2022, no Catar. Esse “relógio” começa a contar dez dias antes da estreia da seleção na competição e para apenas no dia seguinte à eliminação ou à final. Não há exigência de minutos em campo: a simples presença do atleta na delegação garante a remuneração.
O dinheiro, porém, não vai integralmente para o clube atual. A Fifa reparte o valor entre todas as equipes em que o jogador atuou nos dois anos anteriores ao Mundial. Essa fatia distribuída permite que clubes que já venderam o atleta, inclusive times brasileiros, sigam recebendo recursos vinculados à visibilidade do jogador no ciclo de eliminatórias e na própria Copa.
