Em menos de um ano, o Cruzeiro saiu da condição de coadjuvante nas janelas de transferências e virou território de disputa entre os maiores orçamentos do país. Flamengo, Palmeiras e até Barcelona já esbarraram no clube mineiro ao tentar avançar sobre nomes que hoje simbolizam esse novo momento, como Kaio Jorge e Kaiki Bruno. A Raposa, aliás, até duela com o Palmeiras por jogador no mercado.
O que se vê agora é um Cruzeiro mais confortável para recusar propostas altas, segurar o artilheiro do time, colocar preço pesado em um lateral jovem e, ao mesmo tempo, entrar em disputa por um atacante do Flamengo com o Palmeiras. Nesse cenário, a Toca da Raposa se transforma em vitrine disputada e, em algumas situações, em mesa onde o clube escolhe quem participa e em quais condições.
Cebolinha, Kaio Jorge e Kaiki Bruno: por que o Cruzeiro virou ponto de conflito?
A movimentação por Everton Cebolinha ajuda a entender o quadro. De acordo com o jornal O Dia, Cruzeiro e Palmeiras monitoram o atacante, que tem vínculo com o Flamengo até o fim de 2026. O Alviverde trabalha com um cenário de paciência: calcula que, ao esperar o fim do contrato, pode tentar levar o jogador sem pagamento de taxa de transferência. Já o Cruzeiro avalia se vale antecipar esse movimento, em um contexto de mudança recente de comando técnico e montagem de elenco.

Esse interesse ganha contornos específicos quando se recupera um ponto da janela anterior. Em 2025, o Flamengo incluiu Cebolinha em um pacote de oferta para tentar contratar Kaio Jorge, então artilheiro do Brasileirão. Naquele momento, o atacante rubro-negro entrou na equação como espécie de moeda de troca. O Cruzeiro, porém, recusou o formato e estabeleceu que só consideraria sair do negócio com dinheiro em valores fixos e bem acima do que recebeu na mesa.
Do outro lado da história está Kaiki Bruno, lateral de 23 anos que chamou atenção. Monitorado pelo Flamengo, por indicação de Leonardo Jardim, ele rapidamente passou a ser observado pelo Barcelona. Essa “disputa” mostra um Cruzeiro que colocou piso alto para conversas nacionais e viu um clube europeu se aproximar disposto a trabalhar cifras ainda maiores.
Como o Cruzeiro tratou propostas por Kaio Jorge e Kaiki Bruno?
No caso de Kaio Jorge, a diretoria celeste definiu uma linha de atuação logo nas primeiras reuniões. O Flamengo apresentou ao menos três propostas formais, subindo valores até chegar a cerca de 32 milhões e oferecendo Cebolinha no pacote. O Cruzeiro não mudou sua exigência: pedia 50 milhões em montante fixo, sem inclusão de atletas.
O clube mineiro encerrou o tema e caminhou em outra direção: estendeu o contrato de Kaio Jorge até 2030. Durante o processo, dirigentes cruzeirenses chegaram a discutir a possibilidade de acionar a FIFA por assédio ao atleta, após perceberem contatos ao redor do jogador antes de um acerto oficial entre clubes. A ideia não avançou juridicamente, mas serviu como alerta público de que a Raposa não via a tratativa como uma simples negociação tradicional.
Já com Kaiki Bruno, o roteiro seguiu outra trilha, mas com mesma postura firme. Em maio, o GE revelou o interesse do Flamengo no lateral, indicado pelo treinador que o conhecia da Toca da Raposa. A primeira resposta do Cruzeiro foi a de que não havia recebido proposta formal, sugerindo que as conversas começaram fora dos canais habituais entre clubes. Na sequência, o time mineiro colocou um número de referência sobre a mesa: R$ 72,4 milhões como ponto de partida.
Antes de qualquer oferta rubro-negra avançar, surgiu o Barcelona no cenário. Segundo informações do O Globo, o clube catalão passou a acompanhar o jogador com perspectiva de negócio que poderia superar R$ 85 milhões. O interesse europeu mudou o patamar da conversa e reforçou a leitura de que, para vender um dos seus principais ativos defensivos, o Cruzeiro não aceitaria valores intermediários nem pressa.
Por que Cebolinha entra agora no radar do Cruzeiro?
Com Kaio Jorge blindado por contrato longo, o nome de Everton Cebolinha volta à cena sob outra lógica. Na negociação anterior, o Cruzeiro recusou o atacante como parte de um pacote, sinalizando que não via equilíbrio na troca sugerida pelo Flamengo. Meses depois, o mesmo jogador aparece como alvo em um contexto em que o clube mineiro analisa lacunas no elenco, e o Palmeiras observa a possibilidade de contratá-lo de graça ao fim do contrato.
O caso ilustra um ponto central do atual momento da Raposa: o valor de um jogador não está apenas ligado ao futebol que apresenta, mas ao tipo de operação que se encaixa no planejamento do clube. O atacante que não se encaixava como compensação em dezembro pode passar a fazer sentido como contratação específica, em outro calendário, com outro treinador e outras necessidades táticas.
Para o Flamengo, a situação envolve ainda um cálculo de desgaste e retorno. Manter Cebolinha até o fim do vínculo implica correr o risco de perdê-lo sem compensação financeira. Negociar antes, por sua vez, abre espaço para Cruzeiro ou Palmeiras entrarem em cena com propostas diferentes: um pode apostar em compra antecipada, outro em acordo para pós-contrato.
O que mudou no Cruzeiro desde a crise de 2019?
A forma como o Cruzeiro lida hoje tem origem em uma reconstrução que começa longe das salas de negociação. Depois da queda para a Série B em 2019 e do acúmulo de dívidas que levou o clube a uma espécie de colapso operacional, a entrada da holding 1977, liderada por Pedro Lourenço, redesenhou o dia a dia da instituição.
O retorno à Série A em 2022 representou o primeiro passo esportivo dessa retomada. A partir dali, o Cruzeiro adotou uma linha mais agressiva de investimento, com foco tanto em reforços experientes quanto no aproveitamento da base. A chegada de Gerson, em negócio que movimentou cerca de R$ 60 milhões, virou símbolo desse período.
A operação chamou atenção pelo volume financeiro e pelo impacto nacional, sendo colocada lado a lado, em repercussão, com transações de peso. Fica atrás apenas da negociação que levou Lucas Paquetá ao Flamengo, considerada a maior da história do futebol brasileiro.

Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras: disputa de bastidor e choque em campo?
No mercado interno, Flamengo e Palmeiras vêm atuando como polos de atração de talentos desde o fim da década passada. Eles concentram títulos, receitas e boa parte das maiores compras do futebol brasileiro. O Cruzeiro, em estágio diferente de faturamento, se colocou em faixa de clube que escolhe quando negociar e, em algumas situações, rivaliza com gigantes pelo mesmo alvo.
Esse embate não fica restrito às páginas de bastidores. Em 2025, o Cruzeiro frequentou as primeiras posições do Brasileirão em boa parte da temporada, dividindo protagonismo justamente com Flamengo e Palmeiras. O time carioca, comandado por Filipe Luís, terminou o ano com o título nacional e ainda conquistou a Libertadores em final contra o Palmeiras, repetindo a decisão de 2021.
Em 2026, a rivalidade ganha um novo capítulo no cenário continental. Isso porque o sorteio da Libertadores colocou Cruzeiro e Flamengo em chave de mata-mata valendo vaga nas quartas de final. Ou seja, um outro capítulo da disputa por protagonismo nacional nesta década.
