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A grande Copa das mulheres jornalistas

Esta Copa é das “Globelezas”, das “Cazemiras” e de outras repórteres que dão show

by Edgardo Martolio
22/06/26 10:21:51
in Futebol
A Copa do Mundo e o destaque feminino

A Copa do Mundo e o destaque feminino - (Crédito: Reprodução/Instagram)

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Quando o futebol já parecia ter perdido a graça de sua arte, substituída por demonstrações físicas de força e velocidade; quando havia sido invadido por colisões, interrupções e erros primários; quando uma FIFA permanentemente cercada de suspeitas seguia acobertando arbitragens de inocência duvidosa, inventando um VAR que muitas vezes mais parece um BAR e formatando torneios discutíveis, como esta própria Copa de 48 seleções – tão inchada que se tornou mais fácil lembrar quem não a disputava do que quem a jogaria –, chega finalmente junho de 2026 e tudo renasce nos gramados das três nações anfitriãs da 23ª edição mundialista.

Renasce porque a maioria das mudanças regulamentares implementadas quase em cima da hora, pela primeira vez em muito tempo, favoreceram o jogo. Devolveram ritmo e minutos efetivos de disputa que durante anos foram roubados dos espectadores. Essas novas regras permitiram que os melhores jogadores exibissem suas capacidades em plenitude e que suas seleções aparecessem em maior dimensão, mas também possibilitaram que equipes menos abençoadas oferecessem competitividade real, e não apenas aquela falsa igualdade produzida por um nivelamento por baixo.

Assim, estamos assistindo a uma das melhores Copas do Mundo das últimas quatro décadas. Mas as surpresas inesperadas não terminam aí. Pela primeira vez em muitos anos, aqueles que levam as notícias e as emoções do torneio ao público também se somam ao espetáculo de maneira peculiar: menos mesmice, mais dinâmica, mais curiosidade, outro olhar. Um olhar que não é “daqueles”, deles. É delas.

 

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Um post compartilhado por Renata Silveira (@renatasilveirag)

Com pudor profissional e alguma vergonha masculina, devo confessar que esse refresco não é proporcionado pela interrupção do minuto 22 de cada tempo para, fingidamente, hidratar os jogadores, muitas vezes esfriando a partida ou alterando seu curso natural. Quem o proporciona são ELAS, esse batalhão de meninas que torna difícil escolher uma melhor entre tantas excelentes.

É verdade que muitas delas não estrearam agora, nesta Copa, mas foi ontem ou anteontem. Ainda assim, não consigo evitar a pergunta: onde elas estavam? Sim, claro, escondidas pelo machismo que criou raízes tão profundas em nossa sociedade que até quem não deseja ser machista acaba sendo um pouquinho. A surpresa que sinto demonstra justamente isso. E é uma surpresa tão grata quanto reveladora para mim mesmo. Sempre que montei redações, priorizei as mulheres porque acrescentavam “o diferente”. Mas, paradoxalmente, pouco as incluí em meus antigos projetos esportivos.

O jornalismo esportivo sempre pareceu um reduto privado dos homens, algo semelhante aos clubes da África do Sul do Apartheid, que não apenas segregavam os negros, mas também afastavam as mulheres, de qualquer cor, inclusive as brancas. Basta lembrar a Lei do Poder Marital: até 1984, qualquer mulher casada era legalmente considerada uma “menor de idade”. O marido controlava bens, contas bancárias e decisões. Ela não podia abrir uma empresa, comprar um imóvel ou assinar contratos sem sua autorização. Também não podia ser juíza e enfrentava limitações profissionais, sexuais e morais.

Algo parecido ocorria no jornalismo esportivo, especialmente no couto do futebol. “Elas não entendem”, era a sentença lapidar. Até que surgia uma ou outra profissional talentosa, como, por exemplo, Cris Dias apresentando Esporte Espetacular, na Globo, depois na CNN e Band, sempre com qualidade, e, nesses casos, dizia-se: “é a exceção que confirma a regra”. Mas elas começaram a jogar bola. E, em apenas uma década, melhoraram tudo aquilo que o futebol masculino vinha piorando com a condescendência dos “jornalistas especializados“, alguns mais interessados em fomentar seu comunismo que o específico.

Foi por isso que, nos últimos anos, assisti mais futebol feminino do que masculino porque queria ver futebol de verdade, não reclamações, teatralizações, cera e passes para trás, escutando que aquilo tinha sido um bom jogo e que o futebol é um esporte de contato. As meninas jogavam futebol. Futebol mesmo. O verdadeiro. Já escrevi sobre isso.

E agora, um calendário ou dois depois, elas comentam melhor do que nós, homens. Exagerando, diria que a pior delas comenta tão bem quanto o melhor dos “alfa”. Informam, possuem outro faro, enxergam o que nós mal vemos e, quando enxergam o que vemos bem, conseguem explicá-lo com clareza, didatismo e riqueza de informação. São antenadas, estão atentas às curiosidades, enriquecem as transmissões, narram sem erros e apresentam com qualidade. Sejamos justos: elas nos superaram. Não aceita isso? Ainda não? Então aceite, ao menos, que nos igualaram.

Não me surpreendem tanto as “Globelezas” – Renata, Natália, Isabelly, Ana Thaís, Cristiane e Karine –, como as chamo, copiando a criação de Hans Donner. Elas não me surpreendem tanto porque o Grupo Globo sempre se caracterizou pela excelência na formação de profissionais; é uma referência mundial. Também não me surpreendem as comentaristas da ESPN, SBT, Band e CNN — Marcela, Daniela, Elaine, Mariana, Ivana, Luciana, Camila, Carol, Lívia, Renata, Joana, Lana, Tainá e Nathalia. Todas excelentes. Cheias de dados, ágeis e claras; plugadas no interessante.

Mas estou maravilhado com o regimento que a Cazé TV colocou em campo. As “Cazemiras” – Isabela, Fernanda, Victória, Amanda, Luana, Bárbara, Milene, Alline, Natasha, Juliana, Camila, Luiza e Mariana –, como as batizei, nada devem aos “homens de sempre”. Nenhuma dessas jornalistas esportivas faz intervenções vazias.

 

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Um post compartilhado por Fernanda Gentil (@gentilfernanda)

Geralmente tornam a informação atraente e o comentário interessante; quase sempre acrescentam uma história, um plus, esse detalhe extra, um algo mais. Surpreende também que quase todas elas são jovens ou muito jovens, geração “Z”, assistiram apenas um par de Copas, mas conhecem tudo também das outras. Enfim, é bom perceber que, ao menos em alguma coisa, prosperamos. Que demos espaço a quem merecia tê-lo.

Parabéns, meninas. Parabéns, mesmo. E sejam bem-vindas. O jornalismo esportivo precisava melhorar. Me desculpe quem não mencionei. Não deixo de ser homem, velho e por vezes jornalista esportivo, ou seja, incompleto…


 

Tags: Copa do MundoFutebolJornalismo EsportivoMulheres no jornalismo
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