Começa a pior Copa do Mundo da história. Não há como defender o que a FIFA está fazendo para aumentar descaradamente seus cofres, porque tristemente todos sabemos para onde irá esse dinheiro (não vai para a Ucrânia ou Gaza, nem mata a fome das crianças africanas).
A ampliação para 48 seleções não persegue um objetivo esportivo, assim como também não o perseguem as Copas Libertadores e Sul-Americana de mil times cada. A FIFA, e a CONMEBOL, estão longe daquilo que os Jules Rimet de antigamente imaginaram; hoje são empresas suspeitas, para dizer o mínimo. E, nisso, a FIFA é pior do que a CONMEBOL, o que já é muito dizer.
Mais seleções participantes significam maior arrecadação. Os países que participam, por lógica consequência, pagam direitos de televisão muito mais elevados do que aqueles que não jogam. Essa é a principal fonte de receita (44$). Por sua vez, a televisão empurra os patrocinadores a investir com mais força e em mais mercados; além disso, aumenta a quantidade de partidas e, consequentemente, a quantidade de anúncios publicitários.
Do mesmo modo, amplia-se a comercialização de publicidade estática nos estádios e de todos os derivados de merchandising etc, etc. Até o álbum oficial de figurinhas da Panini passou a ter uma quantidade exagerada delas: quando jogavam 16 seleções, eram 271 figurinhas; ao aumentar o número de participantes para 24, as necessárias para completar o álbum passaram a ser 427. O crescimento para 32 países por Copa do Mundo levou esse número a 640 figurinhas. Agora, as 48 seleções participantes obrigam a conseguir 980 figurinhas para preencher o álbum, mais do que o triplo.
Além disso, há mais compradores entusiasmados em mais nações: não é a mesma coisa completar um álbum em El Salvador, que não joga, e na estreante Jordânia. O negócio das figurinhas transformou-se em algo que o leitor dificilmente consegue imaginar. Elas são vendidas em todos os países do mundo (não existe nada, absolutamente nada, tão universal em matéria de impressos).
É como a Coca-Cola em seu ramo. A Panini, feliz. Feliz? Não. Porque depois de 2030, ou seja, depois da próxima Copa do Mundo, a FIFA já anunciou que não renovará o contrato. Será a própria FIFA que administrará as figurinhas. Já fez algo parecido com os direitos de televisão que eram negociados, sob licença, pela agência ISL/Leo Kirch até 1998.
Não se conformou com o fato de que já naquela época o negócio havia sido ampliado por um segundo direito, o da televisão por cabo. Um negócio que hoje triplicou com a internet e outras ervas. Nenhum centavo lhes escapa. A FIFA deveria pagar à televisão para divulgar seus torneios (na realidade, ceder gratuitamente a imagem, cobrando apenas um cânone mínimo de todas as emissoras que quisessem transmitir as partidas). E ela arrecadar por outras fontes mais genuínas. Sem televisão, nada seria o que é. Parece um raciocínio estúpido, mas não é.
A televisão é tudo e a FIFA sabe disso. Porque sabe que o futebol juvenil e o futebol feminino cresceram graças a ela. Sem televisão nada seria igual. Nada. Se, para a próxima Copa do Mundo, todas as TVs do planeta se reunissem e dissessem à FIFA que não transmitirão os jogos, as Copas do Mundo acabariam. Mas isso não acontecerá porque cortaria o filet mignon de muitos senhores do negócio televisivo, como já vimos quando do FIFAGate.
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A diferença na média mundial do custo dos direitos de transmissão televisiva entre os países que jogam e os que não jogam é enorme, embora a classificação, por si só, não determine o preço. Quem o determina é o valor do mercado televisivo. Um país classificado paga, em média, entre 2 e 4 vezes mais do que um país não classificado que decide comprar os direitos.
Dos 196 países reconhecidos pela ONU, apenas 176 pagam, mas 99% da população mundial está coberta, embora 80% da arrecadação seja gerada por 10 países. O Brasil está entre eles. Esse ano, os três países organizadores, cobrem 25% dos direitos mundiais, a Europa 37% e o restante do planeta os outros 38%.
Maior quantidade de países organizadores, também aumenta a faturação da FIFA.
Além disso, hoje serão 109 jogos contra 64 do último Mundial. FIFA espera arrecadar USD 13 bilhões no ciclo da atual Copa, ou seja, de 2023 a 2026, e USD 8,9 bilhões só em 2026, tornando essa a Copa mais lucrativa da história. Mas ela prefere falar que projeta para a Copa 2026 uma injeção de USD 41 bilhões no PIB mundial.
As Eliminatórias sul-americanas, que têm o formato mais justo possível, o de todos contra todos, não foram concebidas por razões de justiça esportiva; neste caso, simplesmente coincidiu. Quando eram disputadas eliminatórias em grupos de 3 e 4 seleções, a quantidade de partidas representava apenas 29% das atuais: antes chegava-se a 26; agora são 90. Cada mudança que é efetuada responde unicamente a questões econômicas. O aspecto esportivo já não é sequer secundário; nem sequer se pensa nele.
A quantidade de substituições, que começou nos anos 1950 com a permissão para substituir o goleiro em caso de lesão, passou nos anos 1960 para duas substituições, a do goleiro e a de mais um jogador; continuou sendo modificada e agora são cinco, que supostamente nasceram durante a pandemia por motivos que podem ser compreendidos. Mas permaneceram porque todos ganham.
Há mais jogadores profissionalizados em circulação, um grande negócio não apenas para eles, mas também para dirigentes, intermediários, agentes e representantes que, de algum modo, beneficiam a FIFA. Poder-se-ia falar muito mais sobre tudo isso, sobre o preço dos ingressos e sobre tantas outras coisas, mas ninguém tem vontade de ler tanto e menos ainda de descobrir que é o torcedor otário que paga a conta.
Sem nós, trouxas infelizes que compramos, pagamos e gastamos o que não temos, o negócio acabaria. Mas, no futebol, somos como aqueles maridos que preferem não saber por que a esposa voltou para casa às cinco da madrugada. Cada um escolhe seu destino; alguns escolhem ser cornos, problema deles. Não podemos criticá-los, porque isso também é o que escolhemos em relação à FIFA e à CONMEBOL: deixamos que nos enganem e não queremos que nenhum vizinho intrometido venha nos dizer isso. Preferimos afirmar que nós, no futebol, escolhemos ser como a antiga Justiça: cegos, surdos e mudos. Um tal Gianni Infantino agradece.
