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Home Futebol

Por que Messi perde pênaltis? A psicologia cognitiva explica

by Edgardo Martolio
23/06/26 08:38:17
in Futebol
Messi voltou a perder pênaltis em Copas do Mundo

Messi voltou a perder pênaltis em Copas do Mundo - (Crédito: Getty Images)

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A psicologia explica. Mas, antes de encontrar as explicações científicas e começar a reunir os dados, percebi que Messi, entre os gênios do futebol, é aquele que mais manifesta o problema (?) que parece dividi-lo em dois: o Messi intuitivo e o Messi reflexivo. Anotar gols em obras de habilidade, improvisando, é fácil para ele. Porém, quando desaparece o recurso da improvisação, quando o intuitivo é neutralizado, surge a pausa, o tempo para pensar, para planejar onde cobrar o pênalti; tudo muda. É ali que aparece o problema que não constitui um “diagnóstico clínico”, mas sim um fenômeno documentado na psicologia.

O nome desse fenômeno é: “Asfixia sob pressão” e “Paradoxo da análise”.

Existem estudos profundos sobre a mente improvisadora que se bloqueia diante da pausa reflexiva, compondo um perfil que a psicologia cognitiva investigou. Segundo a taxonomia de Daniel Kahneman, quem improvisa com maestria opera, em geral, a partir do SISTEMA 1: rápido, intuitivo e automático. Os melhores exemplos são os músicos de jazz, os comediantes de stand-up e os dribladores do futebol, como Messi. O corpo e a intuição resolvem antes que a consciência intervenha.

 

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Quando surge a pausa, aparecem três mecanismos capazes de explicar o bloqueio:

1. Paralisia por análise – Fenômeno que Sian Beilock, da Universidade de Chicago, chamou de Overthinking ao estudá-lo em atletas e matemáticos. Pessoas brilhantes em modo “piloto automático” tendem a reduzir seu rendimento quando são obrigadas a pensar, passo a passo, cada ação que executam. A obra que melhor descreve esse fenômeno é ‘Travar sob pressão’: O que os segredos do cérebro revelam sobre como ter êxito no momento decisivo (2010).

Ao retirar o indivíduo do fluxo natural de sua habilidade e impor-lhe reflexão consciente, o SISTEMA 2 assume o controle. É exatamente o que acontece na cobrança de um pênalti. O Sistema 2 é lento, serial e consome memória de trabalho. O desempenho despenca. É como pedir a alguém que explique detalhadamente como anda de bicicleta enquanto desce uma ladeira. Já não é uma questão de talento. Messi se encaixa com precisão nessa descrição.

2. Memória de trabalho versus memória procedural – A improvisação utiliza a memória procedural, o “saber como”, semelhante a andar de bicicleta. Trata-se de uma competência pré-verbal. A pausa e a reflexão deslocam o processo para a memória de trabalho, o “saber o quê”, verbal e limitada. Sian Beilock e Thomas H. Carr demonstraram, em 2001, no Journal of Experimental Psychology, que golfistas experientes pioravam quando concentravam sua atenção na mecânica do movimento. Os iniciantes, ao contrário, melhoravam. O especialista já automatizou a execução. Pensar interfere.

3. TDAH e “hiperfoco situacional” – Russell Barkley descreve perfis de TDAH caracterizados por “intuição veloz e extraordinária sob estímulo, mas que entram em colapso diante de tarefas que exigem reflexão prolongada sem pressão externa”. Não se trata de um diagnóstico, mas o padrão é semelhante: excelência na improvisação e deficiência no planejamento a frio. O cérebro busca dopamina. A improvisação a fornece. A pausa reflexiva, não.
Por isso, Maradona e Pelé, mais cerebrais, converteram mais de 90% dos pênaltis que cobraram (93,3% e 90,4%, respectivamente), enquanto Messi apresenta uma eficácia consideravelmente inferior: 77,9%.

Já quando observamos os gols sem contar pênaltis, aqueles construídos em jogadas, é Messi quem registra a melhor média por partida: 0,73. Pelé pouco supera a marca de meio gol por jogo (0,52), enquanto Maradona fica ainda abaixo, com 0,43 – embora seja justo lembrar que sua posição em campo naturalmente lhe proporcionava menos oportunidades de finalização o que poderia ter mudado sua eficiência, para mais ou para menos.

Agora: onde Cristiano Ronaldo se encaixa nesse quadro, sendo o quarto nome da comparação? Cristiano não é tão improvisador quanto Messi e parece menos cerebral ludicamente do que Maradona e Pelé; situa-se em uma zona intermediária em ambos os aspectos e se destaca sobretudo por sua superioridade física, que, neste caso específico, nem ajuda nem atrapalha.

Seus números também ficam no meio do caminho: 83,5% de aproveitamento em pênaltis, abaixo de Maradona e Pelé, mas acima de Messi. Tem uma média de 0,60 gol por partida sem considerar cobranças de pênalti, menos que Messi e mais que Pelé e Maradona.

Cristiano parece ajustar-se melhor do que os demais à transição entre o Sistema 1 e o Sistema 2, aquilo que os especialistas chamam de “treinamento da mudança de registro cognitivo sem colapso”. Segundo eles, o bloqueio surge quando o indivíduo é forçado a passar abruptamente do modo intuitivo para o analítico. A chave não está em eliminar um dos sistemas, mas em criar um protocolo de transição entre ambos. Trata-se de construir uma ponte, não um abismo. Por razões diferentes, para os quatro já é tarde demais tentar aperfeiçoar essa passagem.

Jogador Pênaltis executados Efetividade Gols sem pênalti Média de gols sem pênalti por partida
Pelé 52 90,4% 715 0,52
Maradona 60 93,3% 293 0,43
Cristiano Ronaldo 218 83,5% 783 0,60
Messi 145 77,9% 797 0,73

Assim, o perfil psicológico correlacionado ao anterior se expressa de duas formas:

1. Alta extroversão, mais “baixa necessidade de reflexão” – São indivíduos que privilegiam a ação ao planejamento, segundo a Escala NFC de Cacioppo & Petty, 1982.

2. Estilo cognitivo “Impulsivo-Reflexivo” – Pessoas impulsivas respondem rapidamente, cometem mais erros, mas na improvisação isso se torna uma vantagem, segundo o Teste MFFT de Jerome Kagan.

A psicologia também explica a manifestação comparativa desse fenômeno:

Contexto Mente improvisadora Mente analítica
Debate ao vivo Flui, detecta fissuras ao instante Se bloqueia, requer estrutura antes
Exame de desenvolvimento Mente em branco, “eu sei, mas nada emerge” Constrói argumento lógico
Crise súbita Atua com prontidão, resolve Paralisa avaliando opções 

Não se trata de uma patologia. Os psicólogos simplesmente afirmam que é uma compensação cognitiva. Um cérebro otimizado para a velocidade sacrifica profundidade. E o inverso também é verdadeiro.

Agora sabemos por que Messi, em Copas do Mundo, cobrou sete pênaltis e converteu apenas quatro (57,1% de efetividade).


 

Tags: Copa do MundoFutebolMessiPsicologia
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