A origem da luta das mulheres pelo direito de jogar futebol no Brasil começa em 1941, quando o governo de Getúlio Vargas publicou o Decreto-Lei 3.199. O texto proibia mulheres de praticarem esportes considerados “incompatíveis com sua natureza”, incluindo o futebol, sob justificativa médica e moral. A decisão refletia valores sociais da época e institucionalizou o preconceito de gênero no esporte.
Quais impactos essa proibição teve na prática esportiva feminina?
A proibição empurrou o futebol feminino para a marginalidade por quase 40 anos. Sem clubes oficiais, campeonatos ou apoio financeiro, mulheres jogavam de forma clandestina, em campos improvisados e eventos amadores. Além disso, não havia formação de base, o que atrasou o desenvolvimento técnico e tático das atletas brasileiras por gerações.
Outro impacto direto foi o apagamento histórico. Muitas jogadoras desse período não tiveram seus nomes registrados, seus times desapareceram e suas histórias ficaram fora da memória oficial do esporte. Isso criou um vazio simbólico que ainda hoje dificulta o reconhecimento dessas pioneiras.

Quem foram as figuras mais importantes dessa resistência?
Mesmo sob proibição, algumas mulheres se tornaram símbolos da resistência. Times como o Araguari, em Minas Gerais, e equipes informais em São Paulo e Rio de Janeiro mantiveram a prática viva. Jogadoras como Rose do Rio, conhecida por organizar partidas clandestinas, ajudaram a sustentar o futebol feminino em meio à repressão institucional.
Nos anos seguintes à liberação, nomes como Sissi, Formiga e Marta passaram a representar a consolidação dessa luta em nível internacional. Embora tenham atuado em contextos distintos, suas trajetórias são consequência direta da resistência construída décadas antes.
Quando e como o futebol feminino foi finalmente liberado?
A proibição oficial foi revogada apenas em 1979, durante o regime militar, sem grande divulgação pública. No entanto, a liberação não veio acompanhada de políticas de incentivo ou estrutura. A Confederação Brasileira de Futebol só organizou competições oficiais anos depois, de forma irregular e descontínua.
A primeira Copa do Mundo feminina aconteceu em 1991, e o Brasil participou sem qualquer preparação adequada. Mesmo assim, a seleção começou a ganhar visibilidade, pressionando entidades esportivas a investir minimamente na modalidade, ainda que de forma desigual em relação ao futebol masculino.
Quais mitos ainda cercam a presença feminina no futebol?
Um dos mitos mais persistentes é o de que mulheres não teriam capacidade física ou técnica para jogar futebol em alto nível. Dados de desempenho, títulos internacionais e recordes individuais desmentem esse argumento há décadas. Outro equívoco comum é tratar o futebol feminino como uma “versão menor” do masculino, ignorando sua identidade própria.
Também existe o mito de que o desinteresse do público é natural. Na prática, a falta de investimento, transmissão e marketing explica a baixa visibilidade. Quando há exposição adequada, como em Copas do Mundo e Olimpíadas, a audiência cresce de forma consistente.
O que podemos aprender com essa trajetória de resistência?
A luta das mulheres pelo direito de jogar futebol no Brasil mostra como o esporte reflete desigualdades sociais profundas. A proibição legal não impediu a prática, apenas a empurrou para a invisibilidade, revelando que o desejo de jogar sempre existiu. A resistência foi silenciosa, mas contínua.
Hoje, apesar dos avanços institucionais, a história ensina que conquistas não são definitivas. O reconhecimento do futebol feminino depende de memória, investimento e compromisso real. A pergunta que fica é simples: quanto talento ainda será desperdiçado se o passado continuar sendo ignorado?





