Durante muitos anos repetiu-se que Neymar era o herdeiro natural de Lionel Messi. A lógica parecia simples: ambos eram baixos, velozes, extraordinários dribladores e capazes de decidir partidas sozinhos. O brasileiro talvez tenha sido o jogador que mais se aproximou das características técnicas do argentino.
Mas uma estatística da FIFA ajuda a revelar uma diferença muito mais profunda entre os dois. Desde 1974, quando passaram a existir registros completos das partidas dos Mundiais, Messi sofreu, em média, 3,65 faltas por jogo. Neymar recebeu 4,69.

A diferença parece pequena. Não é. Neymar sofreu cerca de 28% mais faltas do que Messi. Em uma carreira de 500 partidas, essa diferença representaria mais de 500 infrações adicionais. Isso ajuda a explicar porque um chegou aos 39 anos ainda decidindo Copas do Mundo, enquanto o outro conviveu continuamente com lesões, interrupções e perda de rendimento.
Seria fácil concluir que Neymar apenas jogou em equipes diferentes ou ocupou posições distintas. Existe alguma influência desses fatores. Mas eles não explicam tudo. A verdadeira diferença está na forma de driblar. Messi raramente dribla para humilhar o adversário. Dribla para passar. Seu primeiro arranque elimina o marcador antes que o contato aconteça. Quando o defensor percebe a intenção, Messi já mudou de direção ou acelerou. O choque deixa de existir.
Neymar faz algo diferente. Seu drible é extraordinário, talvez o mais plástico de sua geração, mas frequentemente acrescenta movimentos que prolongam a jogada. Muitas vezes continua driblando depois de já ter vencido o marcador. Esse refinamento técnico encanta o público, mas aumenta o tempo de exposição ao contato físico.
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Quanto mais tempo a bola permanece próxima do adversário, maior a probabilidade da falta. Nesse aspecto, Neymar aproxima-se mais de Maradona do que de Messi. “El Diego” também construía seus avanços por meio de sucessivas fintas, mudanças de ritmo e desvios de trajetória. Empilhava adversários. Recebia muito mais pancadas. Por isso a tabela o coloca no topo das vítimas com o dobro das faltas recebidas por Messi e 54% a mais do que Neymar.
Messi faz outra coisa. Ele atravessa as linhas defensivas. Não contorna o marcador; elimina sua possibilidade de contato. É uma diferença sutil, quase invisível para quem observa apenas os melhores momentos. Mas aparece centenas de vezes ao longo de uma carreira. Existe ainda outro detalhe. A fama do “cai-cai”, justa ou injustamente construída ao longo dos anos, passou a acompanhar Neymar.
Em diversas ocasiões, árbitros deixaram de marcar faltas verdadeiras porque suspeitavam da simulação, assim como entre as computadas há bastantes que não foram realmente faltas. Devem compensar-se.
Messi nunca carregou esse estigma. Sua relação com o contato físico sempre foi outra: evitá-lo. Essa talvez seja a maior virtude técnica do argentino. Receber menos pancadas não significa apenas sofrer menos dor. Significa sofrer menos lesões, perder menos jogos, interromper menos temporadas e preservar o corpo por muito mais tempo.
É por isso que, aos 39 anos, Maradona era treinador, Messi continua decidindo partidas no mais alto nível do futebol mundial. E Neymar não; foi ou é um craque extraordinário, mas…
