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Home Futebol

A escrita se repete (e o Brasil não aprende)

by Edgardo Martolio
15/07/26 20:24:04
in Futebol
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Mais uma vez, o treinador campeão do mundo será um nativo do país que erguer a taça. Seja Luis de la Fuente, espanhol de nascimento, ou Lionel Scaloni, argentino nato, a história voltará a se cumprir. Desde 1930, quando foi disputada a primeira Copa do Mundo, jamais uma seleção conquistou o título sob o comando de um treinador estrangeiro.

Imagino que a CBF conheça esse dado histórico. Ainda assim, acreditou que um italiano multicampeão por clubes — e não por seleções — nas principais ligas europeias mudaria o rumo errático da Seleção Brasileira. Não foi assim, nem havia lógica ou tradição para que fosse. A questão não é discutir a competência de Carlo Ancelotti, que certamente é enorme.

O ponto é que uma seleção nacional é mais do que um time, ainda que treine muito menos. Ela carrega, implicitamente, a alma futebolística de uma nação; no caso do Brasil, talvez carregue a própria alma do país. Não se é brasileiro apenas por cantar o Hino Nacional. Não se compreende a cultura construída por cinco ou seis gerações em poucos dias; ela não se transmite em um contrato, nem se aprende apenas pela boa vontade, por maior que esta seja.

 

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Uma seleção, em qualquer modalidade, e especialmente a de futebol do Brasil, é como a bandeira nacional. A bandeira não é apenas um pedaço de tecido, por mais nobre que seja. Pode ser confeccionada com o mesmo pano de um tapete, mas jamais será um tapete. Nunca estará no chão, nunca será pisada. Seu significado transcende, em muito, o produto que saiu da fábrica têxtil que a confeccionou.

Além disso, há aspectos difíceis de justificar. Paga-se a um treinador estrangeiro dez vezes mais do que a um técnico brasileiro; quase cinco vezes mais do que recebe Lionel Scaloni, atual campeão do mundo; e cerca de 55% a mais do que ganhava Didier Deschamps, o treinador campeão mundial anterior e, até este sábado, comandante da França.

Mais do que isso: a Federação Francesa de Futebol acaba de estabelecer um teto salarial de 450 mil euros anuais para seu próximo treinador, aproximadamente dez vezes menos do que recebia Deschamps e menos de vinte vezes o que leva Ancelotti. Os franceses compreenderam que o dinheiro tem valor, sobretudo em um mundo no qual ele parece valer cada vez menos.

A FIFA, entretanto, parece viver em outro planeta, deformando o futebol para atender interesses comerciais e enriquecer poucos. Melhor deixar a FIFA de lado; ultimamente, ela se parece mais com um boletim policial do que com uma entidade esportiva. O fato é que, nesse aspecto, o Brasil está equivocado.

Quando o Brasil organizou a Copa do Mundo de 2014, como todos os anos, coube a mim definir o tema da temporada de verão da Ilha de Caras. Naturalmente, naquele ano o tema foi a Copa. Entre os convidados, além de ex-campeões e ex-treinadores da Seleção, estava o então presidente da CBF, José Maria Marin. Fui à sua residência, em São Paulo.

Após aceitar o convite (ir à ilha era o sonho de sua amada, elegante e simpática esposa), a conversa derivou para o futebol e para a Seleção. Em determinado momento, ele me disse: “Se não ganharmos esta Copa com Felipão e Parreira, vou contratar Guardiola. Pagarei o que ele pedir. O Brasil não pode continuar nas prateleiras inferiores“. Respondi imediatamente: “Não cometa esse erro“.

Expliquei exatamente o que escrevo agora: nunca uma seleção conquistou a Copa do Mundo com um treinador estrangeiro. Marin ficou surpreso; desconhecia esse dado. Semanas depois, já na Ilha de Caras, voltou ao assunto: “Você tem razão. A história está do seu lado. Espero que sejamos hexacampeões para que eu nunca mais tenha uma ideia maluca dessas“. Marin entendeu. Espero que a atual cúpula da CBF também compreenda.

O problema é maior do que parece. Contratar um diretor técnico estrangeiro, por mais prestigioso que seja seu currículo, não resolve a questão brasileira; ao contrário, tende a agravá-la. Só não sei qual é o valor da multa prevista no contrato absurdo que foi assinado e, pior ainda, renovado por mais quatro anos, antes mesmo do fracasso neste Mundial. Imagino que seja uma cifra tão elevada que a própria CBF tenha vergonha de divulgá-la, razão pela qual continua mantida em segredo.

É uma pena. O Brasil merece voltar a ser o que um dia foi. Ao menos no futebol, onde já demonstrou, repetidas vezes, toda a sua grandeza.


 

Tags: AncelottiArgentinaBrasilCopa do MundoFutebolScaloniSeleção Brasileira
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