O chip instalado na bola oficial da Copa do Mundo decidiu o confronto entre Portugal e Croácia, nessa quinta-feira (2), interferindo diretamente no resultado em campo. No estádio, a tecnologia de bola conectada enviou dados em tempo real ao sistema do VAR e identificou um toque de um jogador croata no lance que terminou com a bola nas redes portuguesas, respaldando a anulação do gol que levaria a partida para a prorrogação.
O lance aconteceu aos 57 minutos do segundo tempo, em uma jogada construída pelo alto na área portuguesa. Após cruzamento, Matanovic desviou sutilmente de cabeça. Na sequência, um adversário apareceu, houve novo desvio e a bola tocou em Pasalic antes de seguir para o meio da área.
Ruben Neves tentou cortar, mas acabou empurrando para dentro do próprio gol, em jogada que, à primeira vista, colocaria a Croácia de volta no confronto.

Como o chip da bola interferiu no lance de Portugal x Croácia
Assim que a bola ultrapassou a linha, a equipe do VAR iniciou a checagem do possível impedimento de Pasalic a partir do toque de Matanovic. O sistema analisou se o desvio de cabeça do atacante croata configurava o início de uma nova jogada e, consequentemente, colocava o companheiro em posição irregular. Para isso, recorreu ao chip da bola, que registrou com precisão o momento exato do contato de Matanovic. Isso mesmo sem a imagem televisiva mostrar de forma clara o toque.
Os dados enviados pelo sensor se converteram em um gráfico que indicou alteração nítida na linha no instante em que o croata cabeceou. Esse traçado, que lembra um “gráfico de batimento cardíaco” na tela da transmissão, serviu para comprovar o toque na bola. Com essa evidência técnica, a jogada passou a ser considerada uma nova ação ofensiva, e Pasalic foi enquadrado em posição irregular, o que levou à anulação do gol.
Diante do caráter excepcional da jogada, o VAR acionou o árbitro à área de revisão para observar o lance no monitor e conferir também o gráfico gerado pelo chip. Depois da checagem conjunta, a equipe de arbitragem confirmou a anulação do gol. Com isso, Portugal manteve a vantagem no placar, eliminou a Croácia e avançou às oitavas de final da competição.
Como funciona o chip da bola da Copa dentro do VAR?
A bola oficial da Copa, identificada pela Fifa como Trionda, carrega internamente um sensor de movimento de 500 Hz de última geração, descrito como tecnologia de bola conectada. Esse dispositivo é uma unidade de medição inercial (IMU) integrada ao interior da bola, que registra dados 500 vezes por segundo. O sensor rastreia aceleração, direção e movimentos sutis em três dimensões, gerando um conjunto de informações detalhadas sobre cada impacto sofrido ao longo da partida.
Segundo a explicação da Fifa, “os sensores conseguem detectar qualquer contato leve, exibido aos espectadores na transmissão como um ‘gráfico de batimento cardíaco’, e permitindo que os oficiais tenham um nível sem precedentes de dados para tomar decisões rápidas e precisas”. Esse registro acompanha qualquer toque relevante: um chute, um cabeceio, um desvio na trave ou até um possível toque de mão. O sistema trabalha a uma frequência de 500 Hz, o que significa que cada segundo de jogo é fatiado em 500 medições sucessivas do comportamento da bola.
Esse conjunto de informações não permanece apenas dentro da bola. A cada impacto, o sensor gera dados que são transmitidos instantaneamente por uma rede de antenas instaladas no estádio, em um sistema conhecido como LPS. O envio é feito de forma sem fio e em tempo real para a infraestrutura tecnológica da arena, que alimenta um sistema de inteligência artificial. Esse sistema cruza os dados do chip com as imagens das câmeras de rastreamento de jogadores, responsáveis por mapear dezenas de pontos corporais de cada atleta em alta velocidade.

De que forma o chip da bola ajuda a marcar impedimentos e pênaltis?
No documento divulgado pela Fifa sobre a tecnologia da bola, o organismo detalha a relação direta entre o chip da Trionda e o trabalho do árbitro assistente de vídeo. “A Trionda possui um chip de sensor de movimento de 500Hz de última geração que fornece informações sobre cada elemento do movimento da bola. Essa tecnologia envia dados precisos para o sistema de árbitro assistente de vídeo (VAR) em tempo real, aprimorando a tomada de decisão dos oficiais de arbitragem, inclusive em relação a lances de impedimento”, descreve o texto.
A mesma explicação acrescenta: “Um pequeno sensor de unidade de medição inercial (IMU), que normalmente opera a cerca de 500 Hz, é integrado à bola. Este sensor captura dados 500 vezes por segundo, rastreando a aceleração e os movimentos sutis da bola em três dimensões. Esses dados são utilizados para calcular quando houve um toque na bola, e essa informação é então transmitida em tempo real para a sala de operação de vídeo, onde é combinada com os dados de rastreamento do jogador captados pelas câmeras do estádio para auxiliar os árbitros de vídeo (VARs).”
De acordo com o documento, essa integração fortalece diretamente o sistema de impedimento semiautomático. A tecnologia identifica com precisão o ponto de contato com a bola, ou seja, o momento exato em que um jogador faz o toque. Com isso, a checagem de impedimentos passa a contar com um marcador temporal objetivo, o que permite decisões mais rápidas e precisas. O mesmo recurso é aplicado à análise de outras situações, como potenciais toques de mão ou pênaltis, já que o sistema oferece dados detalhados sobre cada desvio, inclusive aqueles que a câmera não registra com clareza.
Na operação prática dentro do estádio, os dados do chip seguem diretamente para a sala do VAR, onde são combinados ao sistema de impedimento semiautomático. As câmeras de rastreamento espalhadas pela arena mapeiam a posição dos jogadores e registram diversos pontos do corpo em alta velocidade. O sistema cruza a localização exata de cada atleta com o instante preciso do toque na bola indicado pelo chip. A partir dessa combinação, a equipe de vídeo consegue avaliar impedimentos e possíveis toques de mão em poucos segundos, como ocorreu no duelo entre Portugal e Croácia, na primeira utilização do gráfico gerado pelo chip para decidir um lance em Copa do Mundo.
