A recusa da expansão da Copa Africana de Nações para 28 seleções expôs uma prioridade clara dentro da Confederação Africana de Futebol: manter a qualidade técnica do torneio acima da tentação de inflar o calendário. A proposta, levada à mesa pelo presidente Patrice Motsepe, foi derrubada por maioria simples no comitê executivo e classificada internamente como “péssima ideia”. Em jogo estava o equilíbrio entre relevância esportiva e apelo comercial da principal competição de seleções do continente.
Dois integrantes do comitê executivo relataram, sob condição de anonimato ao jornal The Guardian, como a discussão caminhou. Um deles descreveu a votação como categórica, sem espaço para meio-termo. Segundo esse dirigente, não houve argumento convincente que justificasse mexer no formato atual de 24 participantes.
O ponto central girou em torno da qualidade do torneio. Mais vagas significariam mais jogos, mas não necessariamente uma Copa Africana de Nações mais forte aos olhos do mundo.

Por que a expansão da Copa Africana caiu tão rápido?
A proposta foi apresentada por Motsepe em fevereiro, durante coletiva em Dar es Salaam, na Tanzânia, já mirando a edição de 2028. Se passasse, a mudança valeria diretamente para esse torneio. Um membro do comitê descreveu a ideia em termos duros: “Foi uma péssima ideia. Não sei por que Motsepe a propôs. Não há absolutamente nenhuma razão para isso.” O recado interno foi que inflar o quadro de participantes não dialogava com o plano de colocar a competição num patamar de referência global.
Outro integrante da comissão reforçou um incômodo adicional: a condução. Segundo esse dirigente, o presidente apresentou a expansão sem consultar previamente o próprio comitê responsável pelas decisões. O incômodo não ficou restrito ao conteúdo, mas ao processo. Para quem votou contra, a mudança mexeria em um torneio consolidado, com impacto direto na imagem da Copa Africana de Nações e sem debate prévio suficiente sobre consequências esportivas e logísticas.
Copa Africana de Nações como torneio de “nível mundial”
Depois da derrota, a comunicação da entidade tratou de enquadrar a discussão em um cenário mais amplo. Luxolo September, diretor de comunicação da CAF, disse ao The Guardian que a expansão era só “um aspecto” do debate sobre como melhorar o torneio.
Segundo ele, a liderança vem discutindo “há aproximadamente dois anos”, de forma presencial e por escrito, como implementar a visão de tornar as competições da casa — em especial a Copa Africana de Nações — de “nível mundial”. A mensagem foi de que o formato é parte de um diálogo contínuo, e não um fim em si.
De um lado, mais seleções significam mais jogos, mais audiências, mais inventário comercial. Do outro, o risco de diluir o peso técnico da competição. Ao reafirmar que o debate não se limita à quantidade de participantes, a cúpula tenta sinalizar que a prioridade declarada é fortalecer o produto esportivo como vitrine global: calendário, sede, organização e formato entram nesse pacote em análise permanente.

Como fica o caminho da Copa Africana até 2028?
Enquanto o desenho do futuro formato segue em discussão, o calendário imediato da competição está traçado. A próxima edição da Copa Africana de Nações, marcada para junho e julho de 2027, terá sede compartilhada entre Quênia, Uganda e Tanzânia. É a configuração confirmada pela CAF, que aponta para um modelo de torneio mantido em 24 seleções, sem a ampliação rejeitada pelo comitê executivo.
Para 2028, o movimento já está em curso nos bastidores. A CAF informou que recebeu candidaturas de Etiópia, de Marrocos e de um projeto conjunto de Botsuana com África do Sul. De acordo com September, a entidade “lançou recentemente o processo de candidatura para sediar o evento”, reforçando que a liderança está “unida em torno de uma visão: tornar o futebol africano um dos melhores do mundo”.
