Júlio Enciso não se emocionou só pela vaga inédita do Paraguai sobre a Alemanha nos pênaltis, em Boston, nessa segunda-feira (29). Na dedicatória, ainda no estádio, carregava o peso da ausência do avô, que morreu antes de ver o neto cumprir a promessa feita ainda no sofá de casa, em Caaguazú. O momento que correu o mundo, depois do gol histórico no jogo, nasceu anos antes, numa sala simples e numa frase repetida tantas vezes que virou compromisso de família.
Foi ao lado do avô, a quem dedicou a classificação histórica, que o atacante aprendeu a olhar para a TV e enxergar mais do que um jogo da seleção. Em Caaguazú, a 180 quilômetros de Assunção, os dois criaram o próprio ritual: Albirroja em campo, neto no sofá, e o dedo apontado para o menino com uma certeza incomum.
O avô dizia com convicção que um dia seria aquele garoto, carregando o sobrenome da família nas costas, defendendo o Paraguai em uma Copa do Mundo. Com o tempo, a frase passou a guiar as escolhas do jovem que mais tarde seria chamado de “Joya”.

Como a promessa ao avô moldou o caminho de Júlio Enciso?
A convicção do avô ajudou o garoto a deixar a cidade natal e perseguir espaço no futebol profissional. Ele estreou no Libertad aos 15 anos e, em 2022, se transferiu ao Brighton por 9,5 milhões de libras. Seu primeiro grande passo da carreira na Europa. Naquele momento, começava a provar em campo que a profecia doméstica tinha fundamento, transformando o sonho de Copa em objetivo concreto.
O roteiro, porém, mudou em maio de 2023, quando o avô morreu próximo ao fim da primeira temporada do neto no Brighton. Período em que ganhava espaço e chamava atenção no futebol. A família nunca divulgou a causa da morte.
A perda mexeu com o jogador, que passou a tratar cada avanço profissional como uma espécie de recado ao parente. Essa presença do avô virou símbolo permanente e a promessa de disputar um Mundial já não era só objetivo esportivo, mas uma forma de manter viva a memória compartilhada diante da TV.
Classificação do Paraguai vira dedicatória ao “abuelo querido”
Em junho de 2025, o atacante marcou o pênalti que garantiu resultado contra o Uruguai em jogo decisivo para levar o Paraguai à Copa de 2026. Enciso desabou no gramado e explicou o peso daquele momento.
“Cresci com meu avô me dizendo que um dia me veria jogar um Mundial. Isso é por ele”, dedicou à época. Na sequência, Enciso foi às redes sociais para registrar essa relação em texto aberto. Escreveu ao “abuelo querido”, dizendo que mandava as palavras “até o céu”, lembrando das tardes em que os dois assistiam à seleção juntos.
Relatou o momento em que o avô apontou para o menino e cravou que um dia ele estaria em campo, com a camisa vestida e o sobrenome da família nas costas. E admitiu que, desde aquele dia, carregava aquelas frases “gravadas na alma”.
Superação até realizar o sonho da Copa do Mundo
O Mundial, porém, esteve perto de escapar das mãos do jogador. Na última semana antes da estreia, em amistoso preparatório contra a Nicarágua, Júlio se lesionou e deixou o campo chorando. Em meio à preocupação com o futuro no torneio, publicou que o sonho de chegar à Copa e oferecer esse momento ao avô seguia “mais vivo do que nunca”.
Recuperou-se a tempo, entrou em campo na fase de grupos e virou peça central da campanha paraguaia. Na estreia, diante dos Estados Unidos, esteve em campo durante os 90 minutos e deu a assistência para o único gol da equipe na derrota por 4 a 1. Contra a Turquia, novamente atuou todo o tempo e serviu mais um companheiro, ajudando a construir a reação paraguaia no torneio.
No empate sem gols com a Austrália, jogou os 90 minutos em partida travada. Porém, mesmo sem bola na rede, Enciso teve importância para o plano de jogo da comissão técnica.

Gol sobre a Alemanha transforma Enciso em herói nacional
O ponto de virada veio na noite de Boston, no duelo de mata-mata diante da Alemanha, pela fase de 16 avos. Escalado como titular, o atacante apareceu na área para cabecear com precisão e abrir o placar para o Paraguai, aos 41 minutos do primeiro tempo. Esse lance, aliás, entrou para a história: foi o primeiro gol paraguaio em uma fase de mata-mata de Copa do Mundo. Kai Havertz empatou, o jogo foi à prorrogação e acabou decidido nos pênaltis.
Na marca da cal, a seleção sul-americana converteu quatro cobranças contra três dos alemães e provocou a eliminação da tetracampeã mundial, resultado tratado como uma das maiores zebras do torneio. O atacante atuou por 58 minutos, já tinha deixado o campo quando a disputa de pênaltis começou, mas seguiu como rosto da classificação.
Quinze minutos depois do apito final, ainda à beira do gramado, ele encarou as câmeras em prantos. “Me lembro de estar sentado ao lado do meu avô. Com certeza ele estará orgulhoso de mim. É o melhor dia da minha vida. Isso é um presente de Deus e dele. Mando um beijo para o meu avô lá no céu. Por ele”, dedicou.
