Garrafas no ar, gritos atravessando a madrugada e sirenes cortando o silêncio das 6h. A vitória do Marrocos sobre a Holanda na segunda fase da Copa do Mundo levou parte da comunidade marroquina às ruas do país europeu em um tom que misturou festa explosiva e tensão. Em Amsterdã, a celebração tomou conta da zona oeste da cidade. Em Haia, confronto com a polícia, garrafas lançadas e detenções.
Marrocos garantiu vaga nas oitavas de final nos pênaltis, depois do 1 a 1 no tempo normal em Monterrey, na madrugada de segunda para terça. Os marroquinos venceram os Países Baixos por por 3 a 2 nas cobranças e eliminou a seleção de Ronald Koeman. A partir dali, a festa tomou conta.
O relógio marcava 6h na Holanda quando o país acordou ainda em meio à explosão marroquina em território holandês. Um país dividido entre o silêncio das ruas laranjas e a euforia de quem se viu representado pelos Leões do Atlas.

Vitória do Marrocos vira madrugada em Amsterdã e Haia
Na capital, o clima tinha cara de festa planejada para durar. Já na zona oeste, região com presença forte de marroquinos, bares mantiveram as portas abertas desde às 3h da manhã. Um café administrado por um holandês de origem marroquina exibia bandeiras nas paredes e deixava claro que a noite não seria exclusiva de um lado. O estádio Het Sieraad reuniu cerca de 200 pessoas para acompanhar a partida, com algo em torno de um quarto da torcida concentrada nos Leões do Atlas.
Mulheres com lenços na cabeça entoavam o hino holandês em voz alta, enquanto rapazes vestidos de laranja aplaudiam o hino marroquino. A troca de gestos simbólicos reforçava o peso daquela madrugada: o duelo não se limitava ao campo, mas também à forma como uma comunidade numerosa se enxerga entre duas bandeiras.
A pergunta que rondava a semana era “então, para quem você vai torcer?” e ganhava resposta mais pela convivência do que pelo conflito.
Comemorações intensas de Marrocos na Holanda
A dimensão da vitória fez a comemoração passar do limite em algumas ruas. Uma hora depois do apito final, a emissora pública NOS noticiou que policiais tinham sido alvo de garrafas e fogos de artifício em Haia. Nesta manhã, a Omroep West, regional, informou a prisão de pelo menos dez pessoas, supostamente torcedores do Marrocos, após os ataques à polícia. Em Roterdã, o jornal Algemeen Dagblad registrou quatro detenções de marroquino-holandeses, sem detalhar o motivo.
Em contraste com esse clima de tensão, a zona oeste de Amsterdã seguiu em tom festivo, sem registro de conflito. A mesma comunidade que lotou bares e cafés para ver o jogo esticou a celebração madrugada adentro. A presença de bandeiras laranjas em um café de um dono com raízes marroquinas e o comportamento misto do público mostraram que o jogo atravessou identidades.
O peso dessa madrugada também se explica pelo tamanho da diáspora marroquina no país. Segundo dados atualizados, cerca de 440 mil pessoas de ascendência marroquina vivem na Holanda, concentradas em cidades como Amsterdã, Roterdã, Haia, Utrecht e Eindhoven. A maior parte nasceu ali, fala holandês desde criança, vive o calendário dos grandes clubes locais, mas preserva uma ligação direta com Marrocos.
Na TV nacional, o ex-técnico Ron Jans levou o dilema para o ar ao perguntar ao ex-jogador Ibrahim Afellay, que vestiu a camisa laranja 53 vezes, com quem ele ficaria naquela noite. O ex-astro demonstrou apoio à seleção marroquina.
