Vini Jr. saiu da fase de grupos da Copa do Mundo 2026 com uma marca que muda de patamar qualquer jogador da Seleção: único brasileiro nos últimos 24 anos a balançar a rede em todas as partidas da fase de grupos, algo que não acontecia desde Ronaldo e Rivaldo em 2002. Somou quatro gols e uma assistência, participou diretamente de cinco tentos e reativou uma coincidência curiosa da história do Brasil em Mundiais. Além disso, ainda entrou em um grupo em que só apareciam Pelé e Zico.
O ponto de virada veio na noite de quarta-feira (24), no Hard Rock Stadium, em Miami, na vitória por 3 a 0 sobre a Escócia, que confirmou a liderança do Grupo C. Ali, o camisa 7 do Real Madrid marcou duas vezes e fechou a conta da primeira fase com gol contra o Marrocos, gol e assistência diante do Haiti e mais dois tentos em cima dos escoceses.
A sequência representa muita coisa aos supersticiosos. Isso porque em todas as vezes em que um brasileiro marcou em todos os jogos da fase de grupos, o Brasil terminou campeão do mundo.

Da estreia tensa ao domínio em Miami: a sequência de Vini Jr
A história de 2026 começou com susto. No duelo de abertura, contra o Marrocos, o ataque brasileiro precisou de Vini para destravar a marcação. O camisa 7 abriu o placar para os brasileiros, mas a equipe já perdia por 1 a 0 àquela altura. O resultado deixou a chave embolada, embora tenha exposto já na largada quem se tornaria o principal ponto de desequilíbrio do setor ofensivo.
Na segunda rodada, diante do Haiti, o cenário ficou mais próximo do que a Seleção costuma projetar para um Mundial. O time venceu por 3 a 0, com um gol e assistência do atacante. Em dois jogos, já somava três participações diretas em gols. A terceira partida, contra a Escócia, passou a carregar duas camadas: briga pela liderança do grupo e a chance de manter viva a série pessoal.
Em Miami, o camisa 7 entregou a atuação mais volumosa da campanha até aqui. Marcou duas vezes na vitória por 3 a 0, garantiu o Brasil para o topo da tabela do Grupo C e cravou a sequência de um gol em cada jogo da primeira fase. No fechamento da conta, quatro gols e uma assistência em três partidas, cinco ações diretas e um rastro estatístico que recoloca 1970, 1994 e 2002 na mesma conversa.
Por que marcar em todos os jogos da fase de grupos pesa tanto?
O recorte que abraça Vini em 2026 é curto, mas carregado de história. Até aqui, só quatro brasileiros haviam passado pela fase de grupos da Copa marcando em todas as rodadas. O primeiro foi Jairzinho, no México, em 1970. O ponta ganhou o apelido de “Furacão da Copa” depois de balançar a rede em todas as partidas do torneio, do início à final, somando sete gols e saindo do Estádio Azteca com o tricampeonato.
Duas décadas depois, em 1994, nos Estados Unidos, Romário assumiu esse papel. O centroavante deixou o dele contra Rússia, Camarões e Suécia na fase de grupos e fechou o Mundial com três gols, em campanha que terminou com o Brasil tetracampeão. O padrão se repetiu em 2002, no Japão e na Coreia do Sul, com dois protagonistas dividindo o protagonismo ofensivo da primeira fase.
Naquele Mundial, Ronaldo marcou um gol na estreia contra a Turquia, outro diante da China e dois contra a Costa Rica. Rivaldo também anotou um tento em cada uma das três partidas da fase inicial. O camisa 9 seguiu marcando nas fases seguintes e terminou com oito gols, incluindo dois na decisão diante da Alemanha, que garantiu o pentacampeonato.
A lista completa de brasileiros que marcaram em todos os jogos da fase de grupos fica assim: Jairzinho (1970), Romário (1994), Ronaldo e Rivaldo (2002) e Vini Jr (2026). Em todas as quatro primeiras campanhas, o Brasil acabou campeão do mundo, dado que volta a circular a cada gol do atual camisa 7.
Como Vini Jr entrou no grupo de Pelé e Zico em Copas
O desempenho de 2026 ainda rende outro enquadramento estatístico. As cinco participações diretas em gols na fase de grupos — quatro bolas na rede e uma assistência — colocam o atacante ao lado de Pelé e Zico em um clube minúsculo: o dos brasileiros que somaram cinco ações decisivas (entre gols e passes) só na etapa inicial de um Mundial.
Em 1970, Pelé fechou a primeira fase com três gols e duas assistências, combinando definição e último passe na engrenagem ofensiva que levou ao tri. Doze anos depois, em 1982, na Espanha, Zico repetiu a conta: três gols e dois passes para gol na fase de grupos.
Vini atinge o mesmo total, mas por outro caminho, com maior peso na finalização. É um retrato numérico de um atacante que, pela Seleção, aparece cada vez mais perto do chute do que da penúltima bola.

O gol anulado contra a Escócia e o quase hat-trick
A noite em Miami ainda guardou um capítulo que poderia ter ampliado ainda mais a fotografia da fase de grupos. Aos 21 minutos do primeiro tempo, em pressão alta sobre a saída de bola da Escócia, o brasileiro tomou a bola de Jack Hendry, avançou para dentro da área e finalizou rasteiro na saída de Angus Gunn. O estádio reagiu como se o 2 a 0 estivesse confirmado, e o atacante iniciou a comemoração de um gol que parecia consolidar um hat-trick.
Segundos depois, o árbitro mexicano César Arturo Ramos Palazuelos foi chamado ao monitor do VAR. Após revisão, entendeu que houve falta de Vini na disputa com Hendry e anulou o lance. A decisão abriu debate imediato. O consultor de arbitragem do Grupo Globo, PC de Oliveira, afirmou que o juiz errou e que “o erro foi do escocês”.
Já a comentarista de arbitragem da ESPN, Renata Ruel, avaliou que a falta existiu, mas ponderou que “na rapidez do campo é difícil ver o lance”. Se o gol tivesse sido validado, o camisa 7 fecharia a fase de grupos com cinco gols e comemoraria o primeiro hat-trick em Copas do Mundo.
De 2022 a 2026: o salto nos números de Copa do Mundo
O que torna o recorte atual mais impactante é a comparação com a primeira experiência em Mundiais. No Catar, em 2022, o atacante jogou quatro partidas e marcou uma vez, nas oitavas de final contra a Coreia do Sul. Em 2026, já saiu da fase de grupos com quatro gols em três jogos. Somando as duas Copas, são cinco gols em sete apresentações, com média superior a uma participação em gol por partida quando entram na conta também as assistências.
Nesse ritmo, Vini já iguala e supera nomes tradicionais em um recorte estrito de Copa. Romário e Zico fecharam suas trajetórias em Mundiais com cinco gols cada; o atual camisa 7 atinge o mesmo patamar em menos jogos. Mais à frente aparece Neymar, com oito gols distribuídos em três Copas. No topo da lista segue Ronaldo, dono de 15 gols e artilheiro histórico da Seleção em Mundiais.
