A Federação Italiana de Futebol abriu a porta para algo que sempre foi tratado quase como tabu em Coverciano: técnico estrangeiro no comando da seleção masculina. Depois de ficar fora da terceira Copa do Mundo seguida e ainda sem um treinador definitivo, a gestão de Giovanni Malagò discute o futuro azzurro com Antonio Conte forte no mercado interno e a ideia de buscar alguém de fora ganhando espaço na imprensa europeia.
A seleção está, hoje, nas mãos de Silvio Baldini, treinador do sub-21, chamado para o cargo de interino após a saída de Gennaro Gattuso. Enquanto isso, a nova direção trabalha em duas frentes: reposicionar o futebol italiano em cenário mundial e redesenhar a estrutura da própria federação. Nesse pacote, a escolha do próximo comandante virou peça central da reconstrução.

Fora de três Copas: por que a Itália chegou a esse ponto?
O ponto de ruptura veio quando a tetracampeã mundial falhou, pela terceira vez consecutiva, nas Eliminatórias. A última participação da Itália em Copa do Mundo foi em 2014, no Brasil. Desde então, a seleção acumulou ausências seguidas nos Mundiais de 2018, na Rússia, 2022, no Catar, e agora 2026, o que a transformou na primeira campeã mundial a ficar fora de três edições em sequência.
Esse acúmulo de fracassos nas Eliminatórias derrubou a antiga cúpula. Gabriele Gravina deixou a presidência da federação, Gattuso renunciou ao cargo de técnico e Gianluigi Buffon saiu da função de coordenador da equipe. O cenário abriu espaço para uma mudança ampla, tanto de nomes quanto de linhas de comando.
Treinador estrangeiro é mesmo uma possibilidade?
Giovanni Malagò, de 67 anos, tomou posse na presidência da FIGC na segunda-feira (22), eleito em assembleia geral com 68,58% dos votos. Um dia depois, em entrevista ao jornal La Repubblica, o dirigente abordou sobre a chance de a seleção masculina ter, novamente, um técnico que não seja italiano. A resposta resumiu o novo clima político no futebol do país: “Nunca diga nunca”.
O tom já contrasta com a postura anterior da própria federação, historicamente fechada à ideia de um estrangeiro na função. A única vez que um treinador de outra nacionalidade assumiu a Azzurra foi em 1954, quando o húngaro Lajos Czeizler treinou a equipe. Acontece que de lá para cá, essa ideia ganhou resistência e nunca mais esteve em pauta.
Agora, com a Itália fora de três Copas seguidas e com Baldini apenas como interino, essa alternativa entrou de fato no debate. Ao mesmo tempo, o mercado doméstico oferece opções como Antonio Conte, um dos nomes mais citados quando se fala em possível sucessor no comando da seleção.
Como Giovanni Malagò pretende recolocar a Itália em rota?
Ao assumir, o novo presidente da federação disse que futebol italiano vive uma fase de “completa estagnação” e precisa de uma “mudança estrutural” urgente. Malagò afirmou que defenderá a autonomia do esporte ao longo de toda a carreira e avisou que, se nenhuma reforma sair do papel, essa transformação acabará imposta de fora.
“Se as coisas não mudarem, alguém nos forçará a mudar. O raciocínio é muito simples”, afirmou.
Neste contexto, a escolha do próximo treinador da seleção masculina funciona como vitrine do projeto de reestruturação. A presença de Baldini como solução temporária oferece tempo para a FIGC analisar com calma o mercado e medir a pressão política interna. Nesse ínterim, seguirá com o debate de até onde a ideia de um técnico estrangeiro é viável.
O debate passa, sobretudo, por identidade. Mas resultados recentes e necessidade de destravar uma engrenagem que não conseguiu levar a Itália a nenhuma Copa desde 2014 também pesam no cenário atual.

A discussão sobre quem será o próximo comandante da Azzurra, italiano ou não, tende a esquentar conforme o calendário avança e as decisões da nova gestão começam a sair do discurso para o papel. A federação tem diante de si a tarefa de provar, com escolhas concretas, se a frase “nunca diga nunca” vai ficar apenas como sinal de abertura ou se será o ponto de partida para a maior ruptura técnica da história recente da seleção.
