A campanha de Cabo Verde na Copa do Mundo 2026 acendeu um interesse que já era dividido muito antes do primeiro chute no Mundial. Por trás das defesas de um goleiro com nome brasileiro e das festas nas arquibancadas, bem como nas redes sociais, já existia uma irmandade forte entre os Tubarões Azuis e o Brasil, feita de diáspora, língua, rádio, música e até de um carnaval chamado “Brazilim”.
O arquipélago de dez ilhas vulcânicas no Atlântico, perto de Senegal, Mauritânia e Gâmbia, tem algo em torno de 522 mil a 525 mil habitantes, segundo Banco Mundial e ONU. A capital, Praia, localizada na Ilha de Santiago, soma menos gente do que muitas cidades brasileiras, mas o peso cabo-verdiano no mapa cresce quando se olha para fora, para a diáspora espalhada pelo mundo.

Como a diáspora liga Cabo Verde ao Brasil?
Estimativas apontam para cerca de 1 milhão de cabo-verdianos no exterior, mas segundo o site Correio da Manhã Canadá, com base em dados do governo local, o país registra 1,5 milhão de emigrantes e descendentes. Em qualquer cenário, há mais população vivendo fora do que dentro das ilhas, o que ajuda a explicar a existência de um Ministério das Comunidades, voltado só para quem saiu do país.
O Brasil entrou nesse mapa migratório especialmente nas décadas de 1960 e 1970. Muitos escolheram a Baixada Fluminense, em cidades como Mesquita, no Rio de Janeiro, onde encontraram uma paisagem rural que lembrava as ilhas de origem. Hoje, segundo o embaixador de Cabo Verde em Brasília, cerca de 6 mil cabo-verdianos e descendentes vivem em território brasileiro.
Cabo Verde e Brasil falam o mesmo idioma?
A ligação entre Cabo Verde e Brasil passa também pela forma de falar, visto que o português é a língua oficial do arquipélago. Contudo, no dia a dia acontece em crioulo cabo-verdiano, o kriolu, usado em ruas, mercados e conversas íntimas. Trata-se de um idioma que nasceu do contato entre português colonial e línguas africanas trazidas por escravizados que passaram pelas ilhas rumo ao Brasil.
Com o tempo, o crioulo se afastou do português de Lisboa e se aproximou, em ritmo e vocabulário, do português falado no lado de cá do Atlântico. Essa história ajuda a entender por que um cabo-verdiano costuma compreender melhor um brasileiro do que alguém de Lisboa.
O kriolu virou a língua das histórias, dos provérbios e dos pensamentos mais íntimos. É assim que a pesquisadora Avani Souza Silva, doutora em Letras pela USP, define o papel do idioma, que também sustenta a principal expressão musical do país.
Como o rádio e a música aproximaram Cabo Verde e Brasil?
Antes da internet, antes mesmo da TV, o Brasil já chegava às ilhas pela faixa das ondas curtas. Quando o rádio brasileiro começou a ganhar forma, em 1922, o sinal atravessou o Atlântico e passou a ser captado em Cabo Verde. Na década de 1940, as vozes de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Sílvio Caldas, além dos sambas de Ary Barroso, já eram familiares no arquipélago.
Esse terreno encontrou eco em um país profundamente musical. A morna, cantada em crioulo, é o gênero que melhor simboliza o imaginário cabo-verdiano, com temas de saudade, partida e distância, muito presentes em um povo marcado pela diáspora.
A cantora Cesária Évora, conhecida como “diva descalça” por se apresentar sem sapatos em solidariedade aos mais pobres, levou a morna para o mundo e reforçou essa identidade. Ao lado dela, coladeira, funaná e batuque compõem o repertório que também conversa com ritmos brasileiros.
Carnaval “Brazilim”: por que Mindelo virou Pequeno Brasil?
No meio dessa ponte cultural, um dado chama atenção: durante o carnaval, Mindelo, na ilha de São Vicente, é chamada de “Brazilim”, o Pequeno Brasil. O apelido não é informal nem ocasional. Está registrado em fontes culturais de Cabo Verde, inclusive na Wikipedia, como reconhecimento de um carnaval fortemente marcado pela influência carioca.
O desfile, as marchinhas e a organização em grupos seguem o modelo do Rio de Janeiro. Um dos grandes compositores cabo-verdianos do século XX, B.Léza, ajudou a solidificar essa conexão. O músico compunha marchinhas no estilo das que ecoavam no carnaval carioca da época.
Vozinha, Josimar e a torcida por países de língua portuguesa
Na Copa do Mundo 2026, a figura que mais sintetizou essa irmandade foi o goleiro que parou a Espanha com sete defesas aos 40 anos de idade. Registrado como Josimar, ele recebeu o nome por causa de um lateral-direito brasileiro, que brilhou pela Seleção em México-86.
O lateral do Botafogo marcou dois gols importantes contra Irlanda do Norte e Polônia naquele Mundial, e essa memória acabou atravessando décadas até o batismo do futuro herói cabo-verdiano. Em entrevista à FIFA, o goleiro explicou o vínculo emocional do arquipélago com o futebol brasileiro e com países de mesma língua.
“As pessoas em Cabo Verde tendem a torcer por países de língua portuguesa como Brasil. Meu avô torcia pelo Brasil porque amava futebol.”

Cabo Verde em Minas Gerais: que cidade é essa?
A relação ganhou um capítulo curioso no mapa brasileiro. Isso porque no Sul de Minas Gerais existe um município chamado Cabo Verde, com cerca de 11 mil habitantes. Durante a Copa, a cidade pintou ruas com as bandeiras dos dois países e levou para as escolas a história do arquipélago africano.
As redes sociais transformaram os moradores em “primos” dos cabo-verdianos, apelido rapidamente adotado dos dois lados. Entende-se, portanto, que são séculos de travessias atlânticas, emissões de rádio, sambas, mornas, marchinhas de carnaval e futebol que ligam essa irmandade, que agora ganha um novo capítulo durante a Copa do Mundo.
