Imóvel, braço direito erguido e olhar reto para o campo, Michel Kuka Mboladinga virou personagem fixo nos jogos da República Democrática do Congo na Copa do Mundo de 2026. O torcedor reproduz nas arquibancadas a imagem de Patrice Lumumba, líder da independência do país e figura central da luta anticolonial africana. A performance rígida, quase de estátua, transformou o congolês em símbolo da seleção e em lembrete permanente de um herói nacional assassinado há mais de seis décadas.
Mboladinga integra a delegação oficial do time congolês, mas não conseguiu chegar a tempo da estreia contra Portugal, na quarta-feira (17), por causa das restrições de viagem ligadas à epidemia de ebola no país. A expectativa, segundo a própria seleção, é que o personagem das arquibancadas apareça nos compromissos seguintes do Mundial. A presença foi construída jogo a jogo, primeiro na África, até chamar a atenção de dirigentes, torcedores e imprensa.

Como o torcedor da RD Congo virou estátua viva nas arquibancadas?
A imagem que hoje roda o mundo começou a ganhar forma na Copa Africana de Nações de 2025. Naquele torneio, Mboladinga passou a ficar os 90 minutos do jogo parado, em silêncio, braço erguido, copiando a postura da estátua de Patrice Lumumba em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. O gesto, repetido partida após partida, fugia do padrão de festa habitual de arquibancada e passou a concentrar câmeras e celulares em torno do torcedor.
A homenagem viralizou nas redes e nos noticiários esportivos, o que aproximou o congolês da própria seleção nacional. A federação o chamou para integrar a delegação oficial, dando a ele status de emblema das arquibancadas. O jornalista Luis Fernando Filho, criador do canal Ponta de Lança, especializado em cobertura de futebol e política africana, explica que a força da imagem está justamente na fidelidade à figura homenageada. “O sósia do Patrice Lumumba, que é idêntico a ele, ficou muito famoso na Copa Africana de Nações. Nos jogos do Congo, ele basicamente é uma figura que fica 90 minutos estático, fazendo um gesto que era típico do Patrice Lumumba. Durante os jogos, repito, ele não se move, não tem um gesto, parece de cera”, relata.
Patrice Lumumba: quem é o líder estampado no gesto do torcedor?
A chave para entender a homenagem de Mboladinga está em Patrice Emery Lumumba, nascido em 1925, no então Congo Belga, ainda sob domínio colonial da Bélgica. Sindicalista e ativista político, ele fundou em 1958 o Movimento Nacional Congolês (MNC), que defendia a unidade do território e a independência do país. A militância surge em um cenário de décadas de violência colonial, marcado por exploração intensa da população local.
Antes mesmo de virar colônia belga, o território foi propriedade pessoal do rei Leopoldo II entre 1885 e 1908. Nesse período, a região sofreu um regime de trabalho forçado, torturas e mutilações para garantir a extração de borracha, marfim e minerais. Estimativas históricas apontam que milhões de congoleses morreram nesse processo. É nesse ambiente que o futuro primeiro-ministro se transforma em uma das vozes mais conhecidas do movimento de libertação, defendendo soberania sobre as riquezas naturais e união dos povos africanos diante da permanência da influência colonial.
O nome de Lumumba ganha projeção internacional em dezembro de 1958, durante a Conferência dos Povos Africanos, em Gana. Na ocasião, o político reforça a necessidade de integração continental e o fim do domínio estrangeiro no continente. Dois anos depois, quando o antigo Congo Belga conquista a independência, em 30 de junho de 1960, o líder assume o cargo de primeiro-ministro do novo Estado. A posse, porém, não seria apenas uma cerimônia protocolar.

Por que o gesto de Lumumba ainda pesa tanto na política e no futebol?
Na cerimônia oficial de independência, diante do rei Balduíno, que exaltou a colonização como missão “civilizatória”, o recém-empossado chefe de governo rompeu o tom esperado para o evento. Em discurso que entrou para a história política africana, denunciou publicamente as humilhações, a discriminação e a violência sofridas pelos congoleses em sua própria terra ao longo do domínio belga. A fala, direta e sem filtro, virou referência para movimentos anticoloniais pelo continente.
No contexto da Guerra Fria, a defesa da soberania nacional, do controle das riquezas minerais e a postura de não alinhamento de Lumumba passaram a despertar desconfiança entre governos ocidentais. Em setembro de 1960, ele é derrubado por um golpe liderado por Joseph Mobutu, que viria a comandar o país como ditador por mais de três décadas. O ex-primeiro-ministro é preso e levado para a região separatista de Katanga, onde acaba executado em 17 de janeiro de 1961.
Investigações posteriores apontaram envolvimento de autoridades belgas e da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) na conspiração que levou ao assassinato. Para evitar que o túmulo se tornasse símbolo de resistência, o corpo foi desenterrado e dissolvido em ácido. Restou apenas um dente de ouro, devolvido pela Bélgica à família em 2022, mais de 60 anos após a morte. Diante dessa história, a imobilidade de Mboladinga nas arquibancadas carrega mais do que folclore: é parte de uma associação de sósias de Lumumba que atua na preservação da memória e das ideias do líder, com caráter político assumido, como relata o jornalista Luis Fernando Filho.
Enquanto a seleção congolesa busca espaço esportivo no cenário mundial, a figura do torcedor-estátua transforma cada jogo em palco para um gesto de memória. Resta acompanhar como essa imagem, repetida a cada apito inicial, seguirá impactando o modo como o país olha para o próprio passado e como o resto do mundo enxerga a história escondida atrás de um braço erguido na arquibancada.
