As chuteiras rosas viraram personagem da Copa do Mundo e dividem atenções com grandes nomes quando a bola rola. Amarrando contrato com a maior parte dos jogadores, as gigantes Nike, Adidas, Puma e New Balance colocaram pink em suas principais linhas para o torneio. Há poucas exceções neste cenário, mas duas chamam atenção: Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
Em seleções diferentes, posições distintas e até estilos de jogo opostos, a chuteira rosa aparece como elemento em comum. Quem assiste pela TV ou das arquibancadas vê esse detalhe saltar na tela, independentemente da camisa usada. Esse destaque, aliás, já representa o resultado de parte da estratégia das marcas no lançamento do produto.

Como a combinação com o rosa ajuda a vender chuteira?
A cor não parte de uma decisão aleatória, mas trata-se de uma estratégia de contraste direto com o gramado. Rosa e verde são complementares no círculo cromático, ocupando lados opostos. Quando aparecem juntos, criam um choque visual forte, que facilita a identificação de um ponto específico na imagem.
Esse contraste ajuda a separar o calçado do resto da cena, especialmente em uma partida cheia de movimentos rápidos. Consequentemente, grava com mais facilidade o modelo na memória de quem acompanha. Há ainda outros fatores em evidência na estratégia.
Nenhuma seleção adotou camisa principal ou reserva totalmente rosa para Copa do Mundo. O segundo uniforme da Bélgica chega perto da tonalidade, e o desenho da Coréia do Sul também se aproxima, mas sem conflito com o tom das chuteiras. Assim, a cor não compete nem com o verde do gramado e nem com tecidos, reforçando o destaque visual a cada tomada de câmera.
E o motivo científico?
Dentro das fabricantes, a defesa dessas cores passa também pela forma como atletas e consumidores reagem ao produto. Odinga Nimako, gerente de produto da Nike, explicou ao The Athletic que, “se você estiver assistindo ao jogo da arquibancada ou pela televisão, o rosa se sobressai contra o verde do gramado”. A fala aponta para o interesse direto em visibilidade, usando a própria ciência das cores como argumento para justificar a escolha do tom predominante nesta Copa.
Nimako acrescentou um segundo ponto, ligado à percepção de quem calça e de quem compra. Segundo ele, “temos ouvido constantemente dos atletas e dos consumidores que, em momentos decisivos, cores vibrantes lhes dão confiança”. Há, portanto, um fator psicológico inserido na estratégia.
A partir desse retorno, a empresa direcionou o desenvolvimento da linha para tonalidades que, nas palavras do gerente, “realmente amplificam a confiança, e o rosa é uma delas”.
Por que Messi e Cristiano Ronaldo não aderiram ao rosa?
Enquanto a maior parte do elenco mundial entra em campo com chuteiras pink fornecidas pelos patrocinadores, o camisa 10 da Argentina optou por um modelo bem diferente. O craque usa uma chuteira branca, com detalhes em azul e dourado, batizada de “El Último Tango”. Trata-se de um calçado pensado exclusivamente para ele.
O desenho faz alusão às cores da Argentina e recupera lembranças da primeira Copa disputada pelo jogador, em 2006, quando ele usou um modelo que serviu de base para a versão atual. A ideia é homenageá-lo nesta que promete ser o último Mundial do craque.
O astro de Portugal segue outra linha exclusiva. Cristiano Ronaldo recebeu da Nike um par totalmente dourado, feito só para ele, fora da cartela rosa que domina o restante do elenco da marca. Outra ação em homenagem ao impacto e, possivelmente, à última Copa do português.
Já a maioria dos atletas tem cláusulas contratuais que determinam o uso das chuteiras rosadas fornecidas pelas empresas, o que ajuda a explicar a uniformidade do visual em campo. A obrigatoriedade reforça o protagonismo do pink no torneio e, ao mesmo tempo, deixa ainda mais nítidas as poucas exceções que não aderiram à tendência.

Quanto custam e quais são as chuteiras rosas usadas pelos jogadores?
Fora das quatro linhas, o “efeito Copa” aparece nos preços. No fim de maio, os modelos ligados a essa onda rosa eram encontrados em lojas da internet com valores que começavam em torno de R$ 800 e chegavam a algo perto de R$ 2.500. A faixa coloca o produto em um patamar alto dentro do mercado esportivo, com versões de entrada e de topo voltadas a quem busca pisar em campo com chuteiras parecidas com as vistas no Mundial.
Na Seleção Brasileira, quatro marcas ocupam quase todos os pés. De acordo com levantamento feito pelo Guia de Compras junto aos fabricantes, 11 jogadores brasileiros atuam com Nike, 8 usam Adidas, 4 calçam Puma e 1 entra com chuteiras da New Balance. Só dois atletas da equipe aparecem sem patrocínio oficial dessas chuteiras; Ibañez com modelos da Adidas e Igor Thiago com pares da Nike.
Cada empresa batizou de forma própria o tom rosa escolhido: Lucid Pink na Adidas, Rosa Neon na New Balance, simplesmente Rosa na Nike e Poison Pink na Puma. Com contratos, nomes de cores e presença constante nas transmissões, o pink se consolida como cor-símbolo desta Copa e levanta a dúvida sobre qual será o próximo tom escolhido para disputar esse espaço visual no futuro.
