A aparição de Diego Maradona em um comercial feito por inteligência artificial durante a Copa do Mundo virou motivo de briga pública na Argentina. A campanha de uma plataforma de apostas esportivas usou uma versão jovem do ex-jogador para associar coragem e ousadia ao ato de apostar.
Exibido durante os intervalos de hidratação das partidas, o vídeo se espalhou rapidamente nas redes sociais. A repercussão negativa, também. Parte majoritária de argentinos apontou desrespeito à memória do camisa 10. A propaganda, porém, conta com autorização de familiares do ídolo nacional.
A peça, assinada pela BetWarrior, recolocou o ídolo na televisão quase seis anos após sua morte. Desta vez, não em homenagens, mas como protagonista de uma ação publicitária. A imagem recriada por IA fala diretamente com o público e cola traços marcantes do argentino ao universo das apostas. A combinação entre tecnologia, memória e o crescimento do jogo online formou o estopim do debate.

Uso de IA com Maradona em campanha de apostas
Apesar do impacto visual da reconstrução digital, a discussão mais barulhenta se concentrou na imagem do ex-jogador vinculado à promoção de apostas esportivas. Admiradores argumentaram que a mensagem não combina com posições que ele demonstrou em vida, especialmente em temas ligados à juventude e a comportamentos considerados compulsivos.
Nas redes, usuários classificaram a propaganda como “lamentável” e “desrespeitosa”, sempre amarrando as críticas ao que chamam de herança deixada pelo número 10 argentino. O nome de Diego Armando Maradona, inclusive, amanheceu no top-1 assuntos do X no país nesta sexta-feira (19).
“Vocês deveriam se envergonhar de uma coisa dessas. Respeitem Maradona”, protestou um torcedor em um dos posts mais compartilhados na mídia local.
Por que o comercial com Maradona em IA incomodou tanta gente?
O incômodo surgiu em um contexto de preocupação crescente com o avanço das apostas esportivas no país. Dados citados pelo jornal espanhol El País, com base em levantamento do Unicef, apontam que um em cada quatro adolescentes argentinos já fez algum tipo de aposta, mesmo com a prática proibida para menores de 18 anos.
Esse cenário ajuda a explicar por que a imagem de um símbolo nacional em uma campanha do setor ganhou tanta repercussão. A discussão não ficou restrita ao futebol, alcançou sobretudo educadores e especialistas em comportamento juvenil. Neste contexto, o comercial acabou funcionando como um gatilho para debates mais amplos sobre responsabilidade e limites.
A imagem reconstruída por IA também trouxe à tona perguntas sobre até onde empresas podem explorar figuras históricas. A sensação, para parte do público, é de que a campanha ultrapassa uma fronteira delicada entre homenagem e uso comercial agressivo da memória de quem já morreu.

Responsabilidade, herança e autorização legal
Do ponto de vista jurídico, a campanha foi montada com respaldo formal. Fernando Burlando, advogado que representa Dalma e Gianinna, filhas do ex-jogador, afirmou que a utilização da imagem recebeu o aval dos herdeiros. Ou seja, a peça teve autorização da família para ir ao ar.
Esse ponto não encerrou o debate, mas deslocou a conversa para outro campo: mesmo quando há acordo legal, qual é o limite aceitável de exploração da imagem de um ídolo morto em ações comerciais?
O episódio abriu uma frente de discussão em três camadas. A primeira passa pela própria IA, usada para recriar um rosto e uma presença que já não existem mais fisicamente. A segunda envolve o mercado de apostas, em expansão e alvo de alertas ligados a riscos de dependência, sobretudo entre jovens. Já a terceira diz respeito à memória coletiva de uma figura histórica, tratada como patrimônio afetivo nacional.
