Para a imprensa do Senegal, a Copa do Mundo 2026 começou com um corte no meio do caminho. Mesmo com visto carimbado, os repórteres senegaleses só podem entrar uma vez nos Estados Unidos, sede com mais jogos do torneio. O documento, válido por 90 dias, trava qualquer ida e volta pela fronteira devido à política de imigração de Donald Trump, que controla o acesso.
No dia 26 de junho, a seleção de Senegal encara o Iraque em Toronto, no Canadá, mas quem cruzar a fronteira para trabalhar ficará impedido de regressar aos EUA posteriormente. A política concedida ao documento da imprensa só permite única entrada ao país norte-americano, expirando no momento em que o passaporte recebe carimbo canadense.
A escolha, portanto, deixa de ser apenas editorial dentro deste contexto. Para preservar o direito de seguir o torneio no país-sede principal, jornalistas senegalenses terão que permanecer nos EUA e, consequentemente, não poderão cobrir a partida que pode decidir vaga à seleção.

Política de imigração interfere no trabalho da imprensa senegalesa
Mamadou Koumé, repórter veterano e autor de livros sobre os Leões de Teranga, resumiu a sensação em poucas palavras: “Será uma Copa do Mundo pela metade”. Ele, aliás, enxerga algo maior do que pura logística de voo e hotel nessa história. Em sua avaliação, a ideia de competição “universal” se esvazia quando profissionais credenciados não conseguem seguir a própria seleção.
A leitura encontra eco em outras figuras do país. Abdoulaye Thiam, presidente da Associação Nacional da Imprensa Esportiva do Senegal, chamou o quadro de grande decepção em entrevista ao Le Monde. “Não somos apoiadores, estamos aqui para trabalhar”, protestou. O recado mira diretamente a política migratória de Trump, que trata profissionais da mídia como torcedores.
Na TV pública RTS, quem aparece na linha de frente é Ibrahima Mboup, em sua terceira Copa. Ele contou que nenhum colega de emissora seguirá o time a Toronto, e toda equipe permanecerá nos EUA, mesmo com o jogo em Toronto podendo decidir o futuro da seleção no torneio. Ele também descreveu as condições de trabalho em território americana como longe do ideal.
Imigração, torcida e bolso: quem fica de fora da Copa de 2026?
O efeito da política de imigração de Trump vai além das cabines de transmissão. Segundo o Ouest-France, o Senegal não conseguiu enviar uma delegação oficial de torcedores para a Copa, algo inédito. O grupo organizado que costuma viajar para empurrar a seleção parou na etapa de vistos.
Com jogos espalhados por Estados Unidos, México e Canadá, os custos de hospedagem e deslocamento subiram. Parte dos profissionais senegaleses desistiu de embarcar por causa desse orçamento inflado. O resultado? Delegação de imprensa menor, com menos gente para se dividir entre viagens longas, treinamentos e jogos em sequência.
Mesmo dentro da África, o cenário não é uniforme. De acordo com o Le Monde, Gana, Tunísia e Marrocos obtiveram vistos de múltiplas entradas, o que permite circular entre os três países-sede sem esse risco de “ponto final” na primeira saída. A Costa do Marfim, por exemplo, ficou com um meio-termo, autorizada a duas entradas.
Já a República Democrática do Congo recebeu uma negativa direta de EUA e Canadá, justificativa ligada à epidemia de Ebola. Na prática, o mapa de vistos escolhe quais delegações africanas conseguem acompanhar a Copa de perto e quais ficam limitadas ou barradas.

O que o depósito de visto mostra sobre a Copa?
Essa distribuição de permissões se conecta a uma engrenagem maior da política migratória de Trump. Desde 2025, o governo americano passou a exigir um depósito de visto de cidadãos de determinados países. A medida, ampliada em abril de 2026, agora alcança cerca de 50 nações, muitas no continente africano, classificadas como de alto índice de permanência irregular.
Os valores desse depósito vão de US$ 5.000 a US$ 15.000, com devolução prometida para quem cumpre todas as regras e deixa o país dentro do prazo. O impacto recai sobre países do Sul Global, onde esse montante pesa mais no bolso e pode inviabilizar viagens de trabalho, estudo ou turismo prolongado. Para a Copa do Mundo, isso atinge diretamente jornalistas, equipes técnicas e outros profissionais que dependem do visto para atuar ao redor dos estádios.
A FIFA negociou uma folga parcial nesse sistema. Torcedores de países classificados que compraram ingressos até 15 de abril e entraram no esquema de agendamento prioritário da entidade não precisaram pagar o depósito. Só que essa exceção ficou restrita ao público das arquibancadas. Quem desembarca para trabalhar, como a imprensa senegalesa, continuou sujeito às cauções e aos limites de entrada, sem qualquer proteção específica.
No caso do Senegal, o impasse ainda pode ganhar novos capítulos dentro do torneio. Se a equipe avançar às oitavas de final, o vai e vem entre cidades e países volta à pauta, e o visto de entrada única segue valendo. A mesma regra que hoje trava a viagem a Toronto pode voltar a pesar num mata-mata.
