Diagnosticado com linfoma de Hodgkin, o técnico do tetra, Carlos Alberto Parreira, está internado no Hospital Samaritano Barra, no Rio de Janeiro, para tratar complicações ligadas à doença. Aos 83 anos, o treinador convive com o câncer no sistema linfático há anos e voltou ao hospital na quarta-feira (17). O caso reacende o debate sobre sintomas, tratamento e desafios desse tipo específico de linfoma.
A unidade confirmou a internação em comunicado, sem detalhar o quadro clínico e reforçando o compromisso com a privacidade do paciente.
O linfoma de Hodgkin é um câncer que atinge o sistema linfático, responsável pela produção dos glóbulos brancos que defendem o organismo. No Brasil, a incidência é considerada relativamente baixa: cerca de três casos a cada 100 mil habitantes por ano, segundo o hematologista Ricardo Bigni, do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Mesmo assim, esse tumor responde por cerca de 20% de todos os linfomas registrados e costuma exigir tratamento especializado, com internações e acompanhamento prolongado.

O que é o linfoma de Hodgkin e como ele atinge o corpo?
Esse tipo de câncer nasce, principalmente, nos gânglios linfáticos, aqueles “caroços” que podem aparecer no pescoço, axilas, virilha e região do tórax. Nos bastidores da doença, o que acontece é uma mutação nos linfócitos, os glóbulos brancos do sistema imune. Quando sofrem essa alteração e se tornam malignos, passam a ser chamados de células de Reed-Sternberg. A partir daí, o cenário muda dentro do organismo.
Essas células doentes desencadeiam reações inflamatórias locais e atraem células de defesa que estão saudáveis. Nessa mistura, forma-se a massa tumoral, geralmente em um gânglio linfático. O câncer não fica parado: ele se espalha de forma ordenada pela rede de vasos linfáticos, que está distribuída em quase todo o corpo. Com a progressão, pode alcançar tecidos próximos e avançar de estágio.
Os tumores do linfoma de Hodgkin aparecem com mais frequência no pescoço e no tórax. Em fases mais avançadas, podem surgir também no abdômen e na medula óssea. A doença é mais comum em adolescentes e adultos jovens, mas também aparece em idosos, como no caso do ex-técnico da seleção brasileira. Em termos de distribuição geográfica, as regiões Sudeste e Sul concentram mais diagnósticos, seguidas por Nordeste, Centro-Oeste e Norte.
Quais são os principais sintomas do linfoma de Hodgkin?
O primeiro sinal que costuma acender o alerta é o inchaço dos gânglios, as chamadas ínguas, que não doem e permanecem aumentadas por semanas. Mas o linfoma de Hodgkin também se manifesta com os chamados “sintomas B”, um trio de sinais sistêmicos observado em doenças hematológicas. Quem explica é o médico Jayr Schmidt Filho, do A.C.Camargo Cancer Center, em entrevista à revista GALILEU.
Segundo o especialista, os sintomas que mais chamam atenção são “febre, sudorese à noite e emagrecimento – perda de peso não intencional – é o que chama mais atenção nos pacientes. (…) É basicamente assim que acabamos vendo os avanços dos sintomas. Em relação a sinais de detecção precoce, é importante cada paciente conhecer o seu corpo e, por acaso os gânglios aumentarem, já procurar um atendimento médico”.
O crescimento de gânglios, porém, não significa automaticamente câncer. Esse aumento pode ter origem em infecções, inflamações ou doenças autoimunes. Por isso, a confirmação do linfoma passa por consulta com especialista e, muitas vezes, por biópsia do gânglio. Essa sequência de investigação é o que permite diferenciar um quadro benigno de um tumor hematológico e definir o melhor caminho de tratamento.
Tratamento e acompanhamento da doença
O tratamento padrão do linfoma de Hodgkin é baseado em quimioterapia intravenosa. Em alguns casos, a equipe médica associa radioterapia para potencializar o efeito dos quimioterápicos, fazendo uma espécie de complementação do esquema. Alguns pacientes ainda recebem medicamentos orais de suporte, voltados a controlar efeitos colaterais e sustentar o organismo durante as sessões.
Quando o diagnóstico vem cedo, as taxas de cura chegam a cerca de 90%, segundo Schmidt. Mesmo assim, o trabalho não termina com o fim dos ciclos de quimio. O hematologista da UFRJ, Roberto Magalhães, explica que a palavra “cura” em hemoterapia tem regra clara: é preciso que o paciente fique cinco anos em remissão completa para ser considerado livre da doença. Durante esse período, a rotina inclui exames de imagem a cada seis meses nos dois primeiros anos e, depois disso, avaliações anuais.
Caso o linfoma volte, ainda há cartas médicas na mesa. Uma das estratégias é o transplante autólogo de medula óssea, que usa células do próprio paciente para tentar controlar o tumor de novo. De acordo com Magalhães, esse procedimento oferece “taxas de curabilidade em pelo menos 50% dos casos”. O desafio, porém, não está só nos protocolos, mas também no acesso a medicamentos.
O hematologista relata que remédios mais antigos, ainda muito usados no tratamento, vêm desaparecendo das prateleiras. Para quem depende exclusivamente do SUS, essa falta pesa, porque limita o acesso a drogas mais modernas e sofisticadas que estão surgindo.
Diagnóstico de Caio Ribeiro
O ex-jogador e comentarista Caio Ribeiro recebeu o diagnóstico de Linfoma de Hodgkin em setembro de 2021. À época, ele descobriu a doença após notar um pequeno caroço no pescoço. O comunicador do Grupo Globo passou por sessões de quimioterapia e radioterapia até anunciar a cura, em outubro do mesmo ano.

Durante a transmissão de Palmeiras e Athletico, no Dia das Mães de 2024, o comunicador se emocionou ao abordar publicamente sobre o período. “O momento mais difícil que eu enfrentei veio depois que parei de jogar. Quando fui diagnosticado com câncer. Minha mãe estava do meu lado no dia da primeira quimioterapia. Minha mãe tava do meu lado no dia da última radioterapia”, recordou.
No meio desse cenário, casos como o de Parreira e de outros nomes conhecidos do esporte, como o comentarista Caio Ribeiro e o jogador David Brooks, do Bournemouth, funcionam como um lembrete constante: o linfoma de Hodgkin é tratável, mas o jogo só fica equilibrado quando informação, diagnóstico precoce e estrutura de atendimento caminham juntos.
