Florentino Pérez tirou do papel uma das promessas da campanha pela reeleição e reabriu o “Caso Negreira”, centro de uma briga com o Barcelona. O Real Madrid informou nesta quarta-feira (17) que enviou à Uefa um documento em que diz reunir provas de pagamentos indevidos do rival catalão a José María Enríquez Negreira, ex-dirigente da arbitragem espanhola. A guerra, que já corria na Justiça, agora ganha um novo capítulo no campo político da bola.
O Real Madrid engrossou o tom sobre o caso e, em nota, falou em risco à integridade das competições europeias. Além disso, cobrou a retomada imediata do processo disciplinar contra o Barcelona. A cúpula merengue ainda afirma ter apresentado à UEFA “provas relevantes” que, segundo o clube, reforçam de forma conclusiva indícios conhecidos desde o início da investigação.
Esses indícios se referem a pagamentos prolongados, descritos como obscuros e sem justificativa verificável. Segundo acusação, a remuneração teria sido feita pelo Barcelona a Negreira por meio de diferentes estruturas empresariais. A nota ainda enquadra o caso como um ataque direto a princípios de igualdade competitiva, neutralidade, imparcialidade e imprevisibilidade do resultado esportivo.

Real x Barcelona: o que está em jogo no Caso Negreira?
O movimento de Florentino tenta reabrir na Uefa um processo iniciado anteriormente, mas paralisado depois. Segundo a nota, a manutenção do escândalo sem desfecho disciplinar compromete seriamente a credibilidade do futebol, das instituições e dos dirigentes.
O clube exige uma resposta “firme, exemplar e imediata” no âmbito esportivo, deixando claro que, para a diretoria merengue, a esfera judicial em curso na Espanha não é obstáculo para que o braço disciplinar da Uefa volte a agir. Na prática, o Real cobra que a entidade reaja agora, sem aguardar sentença definitiva nos tribunais.
Como começou o Caso Negreira na Justiça da Espanha?
O processo nasceu em fevereiro de 2023, a partir de uma inspeção fiscal. Logo depois, o Ministério Público espanhol passou a investigar pagamentos do Barcelona a Negreira, então vice-presidente do Comitê Técnico de Árbitros da Real Federação Espanhola de Futebol.
A apuração identificou que a empresa DASNIL 95 SL, ligada ao ex-dirigente, recebeu do clube catalão 7,6 milhões de euros ao longo de 17 anos. Esses repasses de longa duração viraram o núcleo da suspeita de corrupção esportiva e de uma possível estrutura de influência na arbitragem.
Na esteira dessa investigação, o Ministério Público indiciou Joan Laporta, reeleito presidente do Barça em 2026, além dos ex-presidentes Sandro Rosell e Josep Maria Bartomeu. Eles passaram a responder por crime continuado de suborno, corrupção esportiva, administração desleal e falsificação de documentos comerciais.
A acusação de suborno, porém, perdeu força em 2024. Em maio daquele ano, o Tribunal da Espanha anulou esse ponto específico, ao entender que Negreira não era funcionário público e, portanto, não se encaixava no tipo penal usado na denúncia. Apesar disso, o procedimento judicial segue aberto em outras frentes.
Por que o Real Madrid pressiona a UEFA agora?
O envio do dossiê à UEFA cumpre uma bandeira levantada por Florentino durante a campanha de reeleição. Na época, o dirigente relembrou o Caso Negreira e prometeu apresentar à entidade europeia um material que, na visão da diretoria, comprovaria a culpa do rival.
O comunicado divulgado nesta quarta retoma esse compromisso e reforça o tom de urgência em torno de uma resposta disciplinar. O Real argumenta que a simples permanência do caso, sem sanção esportiva, já fere a imagem das competições e das instituições que as organizam.
Do outro lado, o Barcelona já havia reagido politicamente ao plano anunciado por Florentino. Quando o presidente do Real antecipou que preparava um dossiê, o clube catalão respondeu afirmando que processaria o dirigente. Esse embate discursivo escancara como o Caso Negreira extrapolou o processo criminal e se transformou em arma de disputa institucional entre as duas potências espanholas, agora também em instâncias internacionais.

Na mensagem enviada à Uefa, o Real sustenta que o escândalo revela a existência de uma “estrutura de influência na arbitragem”. A expressão, usada pelo clube, tenta enquadrar os pagamentos a Negreira como algo além de uma relação comercial mal explicada, apontando para impacto direto na confiança do público nos resultados.
Ao vincular o caso a princípios como igualdade competitiva e imparcialidade, a diretoria merengue tenta deslocar o debate para o campo dos regulamentos esportivos, onde sanções podem atingir as competições europeias. Enquanto o processo criminal segue na Espanha, com a acusação de suborno já derrubada, a pressão agora recai sobre a Uefa.
Se a entidade vai atender ao pedido de retomada do processo disciplinar e que tipo de punição poderia ser considerada são perguntas abertas. O certo, por ora, é que Florentino empurrou o Caso Negreira de volta aos holofotes europeus e recolocou a rivalidade com o Barcelona em um terreno em que o resultado ainda está em disputa.
