Mehdi Torabi jogou os 90 minutos do empate por 2 a 2 entre Irã e Nova Zelândia, em Los Angeles, mas não embarcou de volta com a seleção para o México. O meia deixou o gramado do SoFi Stadium com o visto americano vencido: o documento era de entrada única. Ou seja, expirou assim que ele cruzou a imigração dos Estados Unidos. O regulamento da FIFA para a Copa do Mundo não prevê substituição por motivo migratório, e o Irã acusa os EUA de interferência política no torneio.
O episódio com Torabi expõe uma situação incomum em Mundiais: jogador em atividade impedido de seguir com a delegação devido a um visto. Segundo a federação iraniana, todos os atletas receberam vistos de múltiplas entradas, com exceção do camisa 9. No momento em que a equipe deixou Tijuana para enfrentar a Nova Zelândia em Los Angeles, o iraniano já sabia que dependia de novo documento para continuar cruzando a fronteira durante a fase de grupos.
Caso de Mehdi Torabi escancara buraco no regulamento da FIFA
Após o empate, enquanto o elenco embarcava de volta para a base no México, Torabi ficou retido nos Estados Unidos. A federação informou que tenta um novo visto para permitir a presença do atleta nos dois compromissos seguintes, contra Bélgica e Egito, ambos em solo americano. Até que haja uma resposta das autoridades migratórias, o meio-campista está, na prática, fora da rotina da seleção na Copa.

O que diz o regulamento da FIFA sobre substituição de jogador?
O regulamento específico da Copa do Mundo 2026 trata de forma rígida a troca de jogadores após a entrega da lista final. A partir do momento em que a relação de 26 nomes foi enviada e se encerrou o prazo de alterações, só existe uma hipótese para substituição: lesão grave ou doença. Mesmo nesses casos, a mudança precisa de aprovação da FIFA, além de solicitação até 24h antes da estreia do time no torneio.
No caso do Irã, o limite terminou em 14 de junho, um dia antes da partida contra a Nova Zelândia. A partir daí, a lista passou a ser definitiva para os jogadores de linha. A norma não contempla qualquer tipo de impedimento administrativo, diplomático ou migratório. Em outras palavras, o problema de visto de Mehdi Torabi não se enquadra na única brecha regulatória existente.
Há só uma exceção adicional, e ela está ligada à posição mais específica em campo. Se um goleiro sofrer lesão grave em qualquer momento da competição, sua seleção pode solicitar substituição. Isso mesmo depois da estreia. Para os demais atletas, o texto é fechado e não há outro mecanismo. A FIFA não prevê cláusula para situações como recusa de entrada em um país-sede ou expiração de visto durante o torneio.
Por que o Irã fala em interferência política dos EUA?
A federação iraniana relaciona o caso Torabi a um cenário mais amplo de dificuldades migratórias. Desde 2025, de acordo com relatos à imprensa internacional, o país reclama de negativas de visto a membros da comissão técnica e funcionários da delegação. Segundo a BBC, cerca de 15 integrantes teriam sido barrados às vésperas da Copa, obrigando a seleção a montar base em Tijuana e cruzar a fronteira só em dias de jogo.
Em nota, a federação acusa os EUA de “comportamento vingativo”. Os iranianos ainda afirmam que as negativas de entrada “efetivamente privaram a seleção da oportunidade de competir em condições de igualdade e em uma competição livre de discriminação”. O texto divulgado sobre o meio-campista também informa que o visto de Torabi era, desde o início, de entrada única, ao contrário dos demais jogadores, sem detalhar o motivo dessa diferença.
A entidade fala em atrasos e “procedimentos mais específicos” na imigração de outros dois nomes da delegação: o capitão Mehdi Taremi e o auxiliar Saeid Holouei. No embarque de volta para o México, os dois ficaram retidos no controle migratório em Los Angeles e atrasaram o voo. Apesar das queixas públicas, o Departamento de Estado americano não deu explicações sobre nenhum dos casos até o momento.
O que a FIFA pode — e não pode — fazer nesse tipo de impasse?
Questionado em coletiva, o presidente Gianni Infantino reconheceu o problema, mas afastou a possibilidade de intervenção direta. “A FIFA não é rei do mundo”, afirmou. O dirigente reforçou que decisões sobre vistos pertencem exclusivamente aos governos dos países-sede e que a entidade não controla o processo migratório, ainda que o torneio dependa desse fluxo.
Infantino citou o caso de Omar Artan, árbitro da Somália cortado da Copa por não conseguir entrar nos EUA, como exemplo de situação em que a FIFA tentou mediar. A entidade também comunicou a veículos como O Globo que não tem ingerência sobre a emissão de vistos e que o regulamento não pode obrigar um Estado a permitir a entrada de qualquer cidadão.
Na prática, o órgão que organiza a Copa fica restrito ao seu próprio texto normativo. O regulamento pode autorizar substituições por lesão, abrir exceções para goleiros e definir prazos, mas não tem alcance para resolver entraves diplomáticos. Ao mesmo tempo, o fato de não existir uma regra específica para despejos migratórios durante o torneio transforma casos como o de Torabi em zonas cinzentas. O atleta segue inscrito, mas sem garantia de que poderá pisar no país onde estão marcadas as partidas.

Que caminhos restam para o Irã e para Torabi na Copa 2026?
Com dois jogos de fase de grupos em território americano, o Irã depende de uma resposta rápida das autoridades dos EUA para saber se contará com o meia. A federação tenta um novo visto, enquanto o regulamento da FIFA mantém o jogador na lista sem alternativa ao time caso o impasse se prolongue. Não há possibilidade de chamar um substituto, redistribuir vagas ou acionar uma cláusula de exceção por “força maior” ligada a migração.
A situação deixa a seleção entre a diplomacia e o campo. Se o visto for concedido a tempo, Torabi retoma a rotina com o elenco, atravessa a fronteira nos dias de jogo e entra em campo normalmente. Se a autorização não vier, o Irã levará um atleta inscrito, mas ausente, ao longo do Mundial, atuando, na prática, com um elenco reduzido.
Enquanto isso, segue sem resposta uma pergunta simples e central para o caso: por que apenas o visto de Mehdi Torabi foi emitido como entrada única em meio a um grupo inteiro de vistos de múltiplas entradas.
