Desde 1994, toda Copa do Mundo começa com um mesmo protagonista extracampo: o número 1 do ranking da Fifa. A seleção que desembarca como líder do mundo carrega o rótulo de favorita, ocupa manchetes e domina os debates. No entanto, quando a bola rola, esse status deixa de ser garantia. Isso porque há três décadas, a equipe que inicia o torneio no topo quase nunca termina com a taça nas mãos.
Às vésperas da Copa do Mundo 2026, marcada para começar em 11 de junho em Estados Unidos, México e Canadá, esse enredo ganha um novo capítulo. A Argentina de Messi assumiu a liderança do ranking poucos dias antes do torneio, beneficiada pela queda da França após derrota para a Costa do Marfim em amistoso.
O movimento reacende um dado incômodo: desde o título brasileiro em 1994, nenhuma seleção que chegou ao Mundial como número 1 conseguiu confirmar a condição de favorita com o troféu.

Ranking da Fifa: queda da França, e Argentina número 1
A virada no ranking começou em Nantes, nessa quinta-feira (4), quando a França perdeu de virada por 2 a 1 para Costa do Marfim, no Stade de La Beaujoire. Mesmo com Mbappé e Olise liderando o time na etapa inicial, os franceses saíram derrotados do último teste antes da Copa do Mundo.
Com a derrota em casa, a França perdeu 7,89 pontos e caiu de 1º para 3º lugar, passando a somar 1869,43 pontos. A Argentina assumiu a liderança com 1874,81, seguida pela Espanha, com 1873,01. O top-5 ficou assim: 1ª Argentina, 2ª Espanha, 3ª França, 4ª Inglaterra, enquanto o Brasil aparece em 6º.
Desde 1994, o número 1 do ranking da Fifa ganha Copa?
Desde que o ranking da Fifa foi criado, em dezembro de 1992, oito Copas do Mundo foram disputadas. Em apenas uma delas a seleção que liderava a lista antes do torneio terminou como campeã. Isso aconteceu logo na estreia do sistema, em 1994, com o Brasil tetracampeão nos Estados Unidos enquanto ocupava o 1º lugar.
Depois daquele título, o script mudou. Em 1998, o Brasil seguia como número 1, mas viu a França, que aparecia em 6º, erguer a taça em casa, com Zidane como protagonista. Em 2002, o ranking apontava a França como líder, mas a seleção francesa caiu cedo, e o Brasil, que chegava em 2º lugar, conquistou o pentacampeonato na Copa da Ásia.
Em 2006, o Brasil voltou a liderar o ranking, mas o título ficou com a Itália, 13ª colocada entre as seleções, na maior “zebra” da lista. Já em 2010, novamente o Brasil ocupava o número 1, e o campeão veio de outra posição: a Espanha, então 2ª colocada. Em 2014, em um cenário simbólico, a Espanha desembarcou como líder no Brasil e foi eliminada ainda na fase de grupos, enquanto a Alemanha, 2ª colocada no ranking, saiu com o troféu.
A tendência se manteve na última década. Em 2018, a Alemanha chegou à Rússia como número 1 da Fifa e também caiu na fase de grupos. A França, que ocupava o 7º lugar, conquistou o título. Em 2022, o Brasil liderava o ranking, mas se despediu nas quartas de final. A Argentina, então 2ª colocada, foi campeã no Qatar.
A sequência reforça um padrão: neste século, nenhuma equipe levantou a taça da Copa do Mundo enquanto ocupava a primeira posição do ranking da Fifa.

O que o histórico indica para Argentina, França e Brasil em 2026?
Com a atualização, a Argentina chega à Copa 2026 como número 1 do mundo. O status coloca Messi e seus companheiros como alvo principal de análise, mas também os aproxima de uma estatística desconfortável. A mesma condição de liderança acompanhou o Brasil em 2006, 2010, 2014 e 2022, e em nenhuma dessas campanhas a Seleção confirmou o favoritismo com a taça.
O dado também produz um efeito curioso sobre a França. Nas duas conquistas mundiais dos franceses, em 1998 e 2018, a seleção aparecia em 6º e 7º, respectivamente. Em outras palavras, a posição atual não afasta a equipe do bloco de candidatos considerados mais bem colocados quando se observa o comportamento do ranking nas últimas Copas.
O Brasil entra em 2026 em 6º no ranking, a pior colocação da Seleção antes de um Mundial em muitos anos. Ainda assim, os números indicam que esse patamar não representa necessariamente desvantagem. Em 2002, quando o time de Ronaldo Fenômeno conquistou o penta, a equipe estava em 2º lugar — novamente, abaixo do líder, que saiu da Copa sem o título.
Afinal, o ranking da Fifa ajuda a prever o campeão da Copa?
O histórico das últimas oito Copas mostra que o ranking da Fifa funciona mais como termômetro de momento do que como mapa preciso do campeão. Ele indica quais seleções chegam em alta, quem acumula bons resultados recentes e quem atravessa fase de afirmação.
Na prática, o que se vê é um equilíbrio entre favoritos e seleções que crescem dentro do torneio, independentemente da posição inicial. A Itália de 2006, em 13º lugar, representa o caso mais extremo. França em 2018 e Argentina em 2022 confirmam que estar fora do topo do ranking não impede campanhas consistentes e vitoriosas. Já os líderes, em boa parte das vezes, carregam um peso extra de expectativa que não se reflete no resultado final.
