Ele chegou antes do horário combinado. Sorrindo. Não como quem cumpre um protocolo, mas como quem reconhece o espaço que ocupa e faz questão de torná-lo leve. A porta da pequena sala no Ginásio do Taquaral se abriu e Bruninho entrou com naturalidade, cumprimentando todos pelo nome, como se estivesse entrando na sala de casa. Não havia pressa, tampouco distância. Havia presença.
Enquanto ajustávamos os últimos detalhes para iniciar a gravação, ele se virou para Kleevans, o massagista que já preparava a rotina do treino que viria depois. A conversa virou brincadeira em segundos, dessas que só existem quando há intimidade construída no tempo. Bruninho fez questão de contar que Kleevão o acompanha desde os tempos de Florianópolis. Uma informação simples, mas reveladora.
Porque Bruno não fala de trajetórias sem falar de pessoas. Nunca foi só sobre ele. Ali, naquela sala, ficou claro: Bruninho estava em casa. Não apenas por estar no Vôlei Renata, nem por conhecer cada canto do ginásio, mas por estar confortável dentro de si. Leve. Dono de uma inteligência rara no esporte, ele demonstra saber exatamente o tamanho que tem e isso, paradoxalmente, o torna ainda mais acessível.
A conversa avançou para a temporada da Superliga, e o olhar atento do levantador apareceu sem esforço. Bruninho analisa o jogo como quem lê um texto que ajudou a escrever. Fala de escolhas, de momentos, de erros e acertos com a mesma honestidade com que olha para a própria carreira. Não romantiza o alto rendimento. Ele o entende.
Os momentos bons e difíceis de Bruninho
Quando o tema foi a saúde mental, o tom mudou sem perder firmeza. Houve reflexão e coragem. Bruninho falou dos momentos difíceis, daqueles em que foi preciso pedir ajuda para seguir em frente. Em um meio que historicamente confundiu força com silêncio, ouvir um dos maiores nomes da história do vôlei brasileiro tratar o cuidado emocional como parte do treino é mais do que um depoimento: é um posicionamento.
O calendário ajuda a explicar o peso simbólico de 2026. Dez anos da medalha de ouro olímpica no Rio. Quarenta anos de vida. Dois marcos que se encontram em um atleta que sempre foi precoce, intenso e obcecado por vencer. Bruninho falou sobre o passado com orgulho, mas sem nostalgia paralisante. O futuro da Seleção Brasileira surgiu na conversa com respeito, visão coletiva e responsabilidade histórica.
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Há em Bruno uma relação quase física com a quadra. A obsessão pela vitória, que por tanto tempo o definiu, hoje parece ter sido reorganizada: não deixou de existir, mas ganhou contorno, consciência e propósito. Vencer segue sendo fundamental, mas não a qualquer custo. Sobretudo, não à custa de si mesmo.
A relação com a família e amigos
No fim da entrevista, quando o tempo já havia passado sem que percebêssemos, Bruninho se permitiu algo ainda mais íntimo: falar das pessoas que o sustentam fora da quadra. Família, amigos, relações construídas ao longo da carreira. Ele se derreteu ao citá-los, com a mesma entrega com que levanta uma bola decisiva. Porque Bruno sabe exatamente o tamanho que tem e sabe, sobretudo, que ninguém chega até aqui sozinho.
Essa talvez seja a grande impressão que fica depois da conversa: Bruninho não é apenas um dos maiores levantadores da história do vôlei. Ele é um atleta que aprendeu a conviver com o próprio legado enquanto ainda escreve novas linhas. Com lucidez, humanidade e uma rara capacidade de olhar para dentro sem perder o jogo lá fora.




